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O Brasil no Libano

01 abr

Brasileiros no Líbano

Quibe com farofa

Nesta pequena cidade libanesa se come arroz e feijão, se ouve pagode e se fala português. Lucy é o lugar de onde saíram muitos libaneses que vieram tentar a vida no Brasil e que voltam para casa levando na bagagem, além de muito dinheiro, um país inteiro.

Por Bettina Barros.
Fotos: Stephen Wallace

Lucy é um vilarejo escondido no mapa do Líbano, cravado entre montanhas e rodeado pelos campos verdes do Vale do Beka, já perto da fronteira com a Síria. Aqui nasceu Ghada Alwan, 23 anos, que mesmo sem nunca ter saído de casa, sente-se estrangeira. “Não parece que eu estou no Líbano, é como se estivesse fazendo intercâmbio em outro país”, diz. Não é exagero: até pouco tempo, Ghada, que é formada em Letras, não conseguia acompanhar nem a conversa das amigas, que assim que se juntavam insistiam em falar uma língua estranha aos seus ouvidos.

“Há muita gente aqui que mal sabe falar árabe. Eu tive que aprender língua e costumes novos para me integrar à sociedade”, explica. Ghada não teve outra alternativa a não ser estudar português.

Espécie de território brasileiro em solo libanês, Lucy tem cerca de mil habitantes, dos quais 90% passaram a maior parte da vida no Brasil. A invasão pacífica começou no fim dos anos 80, com o enfraquecimento da guerra civil que por anos tomou conta do Líbano.

Os libaneses que tinham ido tentar a vida no Brasil começaram a voltar para seu país, levando consigo suas famílias brasileiras, que por sua vez foram levando os amigos. O resultado é uma simbiose de culturas: nas conversas, fala-se um português salpicado de palavras em árabe; nas mesas, receitas brasileiras dividem espaço com iguarias locais; nos aparelhos de som, sertanejos e lambada alternam-se com cantores libaneses.

Meninos jogam taco em Lucy, um vilarejo no Líbano onde os laços com o Brasil estão em toda parte

Café e visitas
A paulista Márcia Taha, de 28 anos, está há dois anos em Lucy. Filha caçula entre oito irmãos e muito apegada à mãe, ela nunca havia pensado em mudar-se para a terra do marido. Quando Hamze tocava no assunto, respondia: “Nem pensar”.

Até o dia em que ele teve que voltar, para assumir os negócios do pai no Líbano. “Fizemos um trato: eu iria desde que pudesse visitar o Brasil a cada dois anos”, conta.

Márcia tinha medo do que encontraria pela frente. Tinha impressões negativas sobre seu novo país. “Minha família foi totalmente contra. Eles me perguntavam o que eu tinha na cabeça para ir morar em um país de guerra e criar meus filhos onde não conhecia ninguém.”

Preocupações que o tempo se encarregou de dissipar. A guerra civil libanesa acabou faz tempo e, aliás, nunca chegou a Lucy. Quanto a não conhecer ninguém, bem… “Eu me assustei nos primeiros dias: era um tal de entra-e-sai de gente o dia todo, minha casa ficou uma loucura! Tá vendo esse café aqui? [aponta para a xícara do forte café árabe, que é servido sem ser coado]. Eu tomava dez desses por dia! Bastava eu sair no quintal que a vizinha já gritava ‘vem tomar café!’, e aí ela chamava outra amiga, e mais outra, e o povo ia chegando de novo.”

A paulista Márcia Taha nunca se sente só: sua casa é um entra-e-sai de gente

Uma de suas primeiras lições sobre as regras de hospitalidade libanesa: ao receber visitas (imprevistas), ofereça café, docinhos, e depois retribua com outra visita.

Foi difícil a família se acostumar. Quando moravam em Ubatuba, no litoral paulista, Márcia e Hamze tinham uma rotina organizada e todos os encontros com os amigos eram previamente combinados. Mas em Lucy as coisas acontecem de repente. “Às vezes eu estava acordando e lavando o rosto e já tinha gente batendo à minha porta. Isso me incomodava bastante. Eu achava que tirava a minha privacidade”, diz Márcia.

“Algumas horas eu pensava: ‘não quero tomar café, quero fazer sopinha para o meu filho!’.” Mas eu tinha que sentar, conversar… não podia fazer nada, senão passaria por esnobe. Meu marido dizia que era só porque tínhamos acabado de chegar, mas até hoje é assim. Só que agora eu já tenho intimidade para não aceitar os convites e impor os meus horários.”

O dia do fico Manter a agenda social em dia nunca foi problema para Sálua Barakat, que diz ter se adaptado naturalmente ao ritmo de Lucy. “Eu adoro a informalidade daqui. As pessoas são próximas, vão chegando, se aglomerando, e isso faz com que a gente goste da cidade”, diz. Filha de libaneses nascida em Santo André, formada em turismo, solteira, ela decidiu aos 30 anos mudar para Lucy. Quando criança, já tinha visitado a cidade, em férias com os pais. Mas, como Márcia, nunca tinha pensado em deixar o Brasil. “Vim com meus primos passar 40 dias. Todos foram embora e eu não quis. Fui ficando, ficando… Estou aqui há um ano, e feliz da vida”, conta.

O que mais influenciou Sálua a ficar foi um fator citado por todos: a segurança. Por ser uma comunidade pequena onde todas as caras são conhecidas, dificilmente um estranho entra na cidade sem ser percebido, o que limita a ação de ladrões. Assim, Lucy gaba-se de não conhecer a violência, num país estigmatizado por guerras e terrorismo. Seus moradores contam nos dedos as vezes em que a polícia colocou os pés na cidade.

Apesar de as casas serem muradas -alguns arriscam que é herança do Brasil-, não há perigo de assaltos. Os carros ficam com as janelas abertas e a chave no contato. Para os moradores (quase todos vítimas de assaltos nas capitais brasileiras), essa liberdade é o céu. “Aqui eu me sinto no Brasil, com a diferença de que tenho uma vida segura”, resume Sálua.

A independência econômica é outro ponto forte da cidade. A construção da rede de esgoto, da mesquita e a pavimentação da única estrada que une Lucy ao resto do país foram realizadas com o dinheiro dos moradores, sem ajuda do governo. Privilegiada por estar sobre terras ricas em água, algo raro no Oriente Médio, Lucy mantém poços artesianos particulares em cada casa e ainda distribui água para outras 30 vilas da região.

Concurso de mansões Encravada numa zona rural a duas horas de carro da capital, Beirute, Lucy é uma cidade simples, sem cinema, restaurante e nem mesmo um grande centro comercial. Suas casas, porém, ostentam progresso.

Espaço não falta para que as famílias coloquem em prática seus sonhos arquitetônicos. E como numa competição muda, as casas de pedra em tom areia tentam se superar nos quesitos exuberância e tamanho. Uma das maiores é a mansão que os habitantes de Lucy apelidaram de “White House”: tem três cozinhas e um jardim com mais de 100 espécies de plantas.

Outro casarão é o de Sausan Dargham: quatro salas de visita, uma de jantar, uma de jogos, duas de TV, uma para a reza, quatro suítes, hall, cozinha, miniquadra, churrasqueira e fonte, numa área de cinco mil metros quadrados.

A libanesa Sausan Dargham (com o filho e sobrinhos) é dona de uma das mansões de Lucy: o pé-de-meia foi feito no Brasil

Sausan, de 36 anos, nasceu e se casou em Lucy, com um libanês que havia imigrado para o Brasil aos 13 anos, seguindo tios e primos. O casal começou a vida em Santos, no litoral paulista. Foram 12 anos na cidade, onde o marido de Sausan trabalhou com vestuário e móveis, ramos que concentram a maior parte dos libaneses no Brasil. A família vivia em um apartamento pequeno, num bairro classe média.

“O Brasil é um país muito bom, onde você se entrega ao trabalho e recebe retorno”, diz Sausan, que não trabalha fora e passa o dia em função da casa dos sonhos. Foi com o pé-de-meia feito do outro lado do Atlântico que eles puderam retornar ao Líbano e construir o casarão, que consumiu sete anos para ficar pronto. “Se não fosse o Brasil, não haveria tudo isso”, admite.

O Brasil teve papel importante no desenvolvimento da cidade. Foi de Lucy e de suas cercanias que saíram, nos anos 50, as primeiras levas de imigrantes libaneses em busca das promissoras terras brasileiras. Quando voltaram, décadas depois, eram empresários de sucesso e chefes de famílias brasileiras.

“Em algumas cidades vizinhas já nos cumprimentam com ‘bom dia'”, conta a advogada de Guarulhos Khadije Arabi, de 41 anos, há sete no Líbano. Ela gostaria de voltar a trabalhar, mas Lucy quase não oferece postos de trabalho. A maioria dos moradores está empregada nas cidades vizinhas, maiores, onde só falar português não basta. “Nem me atrevo a procurar emprego sem antes melhorar o meu árabe, o que é difícil aqui”, ela diz. “Quem quiser aprender árabe, que não venha a Lucy”, aconselha.

Enquanto ela fala, Telma Orra, de 43 anos, tira da mesa as travessas do almoço e coloca água para ferver. “Você bebe café ou chimarrão?”, pergunta à Khadije. “Viu só? Não tem como sentir saudade do Brasil!”, brinca a amiga, que aceita os dois. O almoço reúne as singularidades de Lucy: arroz, feijão, farofa e quibe ao iogurte, uma especialidade libanesa. “Eu faço comida brasileira todos os dias. Quando preparo algo árabe, tem sempre arroz, uma salada ou uma massa para acompanhar”, diz Telma. Ou couve e brócolis, que ela colhe direto da horta – as sementes são passadas de vizinha à vizinha, constantemente abastecidas por visitantes do Brasil.

Telma chegou ao Líbano em 1990, acompanhando o marido, Mohammed. O casal montou uma loja de roupas importadas e viajava duas vezes por ano ao Brasil para abastecer o estoque. Em 97, porém, a loja acabou sendo fechada porque estava dando prejuízo. Hoje a família vive de aluguéis de carro e Telma não trabalha mais. Como adora cozinhar, é na sua cozinha que acontece a maior parte dos encontros com as amigas.

“O povo vem direto aqui. Acho que é para ficar perto do cafezinho e das bolachas”, acredita. Ela mostra o coador de café, os temperos Maggi, um pote de plástico fixado na parede onde se lê “sal”. “Ah, eu trouxe tudo mesmo! Os armários embutidos vieram da minha casa antiga, os pratos, as baixelas…”, enumera, empolgada.

Khadije Arabi toma chimarrão, mas Ghada Alwan prefere fumar narguilé

Como não há opção de entretenimento na cidade, as pessoas costumam se juntar para passar o tempo. Os finais de tarde são animados: há sempre reunião na casa de alguém para jogar cartas, ouvir música, dançar e conversar. O programa que atrai mais adeptos é a partida de tranca, regada ao narguilé.

Uma das mais populares tradições do Oriente Médio, o narguilé é uma espécie de cachimbo de água. O fumo forte, que não costuma ser tragado e tem aroma de menta ou maçã, é passado adiante como um chimarrão e até os adolescentes participam do ritual.

As ambições dos jovens de Lucy dividem-se no período da faculdade. Os rapazes viajam para estudar ou trabalhar em grandes centros; as meninas ficam e casam cedo, com os moços que retornam. “Em Lucy não tem isso de namoro. Se você gosta de alguém, já fica noiva. Daí é que o rapaz começa a freqüentar a sua casa e um conhece o outro”, explica Nasmie Orra, 21 anos, filha mais nova de Telma. “Se uma garota conversa por muito tempo com um rapaz, o povo já fala ‘ah, tá comprometida'”, continua.

Embora a Lucy de hoje há muito tenha abandonado a prática do casamento arranjado, quando os pais escolhiam com quem e quando seus filhos se casariam, ainda existem certas imposições sociais. “Para casar, precisa da aprovação dos pais. E eles preferem que seja com alguém daqui, porque conhecem a família e têm certeza de que a filha estará em boas mãos”, explica sua irmã, Leila, de 22 anos.

Sálua Barakat sabe bem até que ponto essa preocupação dos pais pode chegar. “Uma vez apareceu um casal de senhores na minha casa. Eles haviam escutado a meu respeito e vieram propor que eu conhecesse a família de um rapaz interessado em casar. Fiquei revoltada: ‘o que é isso, acham que sou objeto?’ Mas meu pai disse: ‘filha, é assim que as pessoas se conhecem no Líbano’.” Eloqüente, Sálua solta farpas quando o assunto vem à tona. “Deixei claro: não quero que fiquem batendo à minha porta para apresentar homem para eu casar. Agora, ninguém mais se atreve a fazer isso”, diz.

As irmãs Nasmie e Leila também acreditam que não sofrerão interferências nas suas escolhas. “É um privilégio ter pais que viveram no Brasil porque têm a mente mais aberta. A gente vê a diferença entre os que moraram fora e os que nunca saíram daqui. O fluxo de brasileiros ajudou a cidade a se modernizar nesse sentido”, diz Leila.

Nem todos os costumes muçulmanos, porém, podem ser driblados com um jeitinho brasileiro. Quando mudaram para Lucy, Nasmie e Leila deixaram fora da mala as regatas e os shorts. Sabiam que morar em uma cidade muçulmana implicava discrição nas roupas femininas. No início, morreram de calor. Depois, aprenderam a compor um guarda-roupa leve, sem ser ousado. Usar véu e roupas compridas não é uma obrigação religiosa no Líbano e cada mulher decide se quer cobrir-se.

Muçulmanas como Sálua, Márcia e Sausan usam batom, esmalte e cabelo solto. O que importa é ter o “coração limpo”, defendem. Já a advogada Khadije decidiu-se pelo véu, como reverência à religião. “Nem pedi a opinião do meu marido, eu me senti bem em fazer isso”, diz.

O véu não é um problema para as mulheres em Lucy. Há algumas leis islâmicas, porém, que podem se tornar um dilema. Em caso de divórcio, por exemplo, a mãe só fica com a guarda dos filhos até que os meninos completem 7 anos e as meninas, 9. Daí a guarda passa para o pai. Mas a diferença entre a lei brasileira e a libanesa não parece preocupar as mulheres de lá. Em geral elas nem pensam em se divorciar e fazem do casamento, dos filhos (média de cinco por casal) e da casa, sua vida.

Esses são os sonhos de Ghada, a libanesa que aprendeu português para sobreviver em Lucy. Ela está de mudança para os Estados Unidos, onde viverá com o futuro marido. Feliz da vida, planeja a primeira viagem do casal: o Brasil. “Quero ver o Cristo Redentor”, diz. E promete que fará o marido falar português.

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Publicado por em abril 1, 2009 em Uncategorized

 

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