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Carta a um amigo imaginário

13 abr

De: Mauro Wainstock, diretor do Jornal ALEF.
Assunto: Conflito em Gaza.


RJ, 19 de janeiro de 2009

Prezado amigo:

Infelizmente, desde que começou o conflito em Gaza, senti que nós começamos a nos afastar. Não por vontade própria, mas certamente por divergência de opiniões; para evitar discussões mais ásperas; para não perder o amigo. Como em uma amizade de verdade é preciso ser sincero, gostaria de compartilhar contigo alguns pensamentos.

Como você já percebeu, hoje em dia, para ser politicamente correto, é preciso criticar Israel. Não importa o que ele faça, o desafio é encontrar algo para condená-lo – seja o que for. Parece tão fácil, né ? Principalmente quando se trata de um “modismo”. Quer ver um exemplo ?

No título abaixo, Israel “rompe” a trégua –
que ele mesmo propôs… unilateralmente…

… E, abaixo, a explicação: na realidade,
Israel apenas respondeu ao ataque de foguetes…


O que você talvez não saiba, é que, tanto eu, como o povo judeu e os israelenses, também criticamos Israel. E, para a sua maior surpresa, não o criticamos apenas em tempos de guerra, mas diariamente. Somos impiedosos, tão eloquentes quanto no Brasil são as discussões sobre futebol. A mídia israelense também não perdoa ! É tão forte este hábito de nos auto-criticar, que brincamos, dizendo que onde há dois judeus há três opiniões e cinco sinagogas… E digo mais: como você sabe, em Israel vivem muitos árabes, que votam e tem voz no Parlamento, enfim, possuem todos os direitos dos judeus que lá residem. Como vivem a nossa mesma realidade, nos ajudam muito a criticar o país – fortalecendo a sua democracia. Não sei o que você acha, mas, para mim, democracia é a pluralidade de idéias, expressada pela crítica bem intencionada, e não por aquela que abriga outros interesses, revelados ou não: que reinventa o passado para criar argumentos, que polemiza o hoje para multiplicar a sua audiência e que tem o firme propósito de conquistar o amanhã – mesmo que depois venha a exterminá-lo. Você concorda comigo, né ?


Encontrei esta charge no “O Dia”, jornal carioca de
grande penetração popular. Você vê alguma graça nisso ?
É um exemplo da”crítica modismo” que lhe falei,
que tenta disseminar o ódio e estimular o preconceito
gratuito. Como um tradicional veículo se presta a isto…
apenas para ser “engraçadinho” ? Como ele compara a
II Guerra Mundial, quando o objetivo foi dominar o mundo
e criar uma “raça pura”, acarretando milhões de mortes,
com uma ação em defesa de cidadãos inocentes, que
apenas reagiram para não serem exterminados, como
quase aconteceu nesta mesma guerra… Absurdo, né ?


Pelo que eu o conheço, você sempre foi coerente, humanista, mas nunca se aprofundou sobre os assuntos do Oriente Médio. Por que está se interessando por isto agora ? Sei que você nunca se envolveu com os “eternos” conflitos na Cachemira, entre hindus e muçulmanos; na Macedônia, entre cristãos e muçulmanos; na Tailândia, entre budistas e muçulmanos. Puxa, os muçulmanos estão em todas, né ? Você muito menos algum dia esteve preocupado com os vários ataques terroristas que vem ocorrendo mundo afora, como na Espanha, na Inglaterra e, mais recentemente, na Índia, quando atacaram centenas de turistas e um rabino foi brutalmente assassinado. Lembra-se ?

Você me dizia que nunca tinha tempo para se envolver com estes assuntos, até porque não vive nestas regiões e estes temas estão muito afastados do seu dia-a-dia, não geram interesse, o que é perfeitamente normal. Então por que está se interessando agora ? Eu entendo… é “moda”. E aí, para não ficar fora do atual debate, você está indo “na onda”, reproduzindo o que lê. Tudo bem, foi a alternativa que você encontrou, ok… Então, neste caso, seria melhor mudarmos de assunto e falarmos sobre a nossa realidade. Que tal criticarmos o descaso com a morte de idosos nas filas dos hospitais brasileiros; a rotineira guerra com os traficantes, que fecham ruas e escolas quando bem entendem; o constante assassinato de inocentes por balas perdidas… são temas em que não há réplicas ou debates, apenas um fútil e despretensioso falatório. São assuntos imutáveis. Brincadeirinha…

Voltemos à seriedade. Vou responder uma questão que você sempre me faz: é justo que aconteçam tantas mortes em Gaza ? Neste ponto concordamos: é claro que não !!! É deplorável a morte de mulheres, de civis… e a de militares – por que não ? Toda guerra é absurda e produz vítimas inocentes de ambos os lados. E a morte de crianças ? Uma tragédia, né ! Isto pensamos eu e você, que vivemos em uma cultura que preza determinados valores. Mas a cultura dos terroristas, ou dos “militantes”, como você os chama, valoriza a utilização das crianças, coitadinhas, como escudos. As famílias são incentivadas com uma “bolsa-mártir” e os pais sonham com o paraíso eterno. É, por incrível que pareça, uma outra forma de viver – voltada para a morte. Posso lhe garantir que esta filosofia não está expressa no “Alcorão”, o livro-base do Islã, mas de qualquer forma temos que respeitar – até que pertubem a nossa paz ou que o mundo perceba que este tipo de cultura deva ser combatido.




Os simpatizantes do Hamas em Gaza, que pelo menos contam com os petrodólares de sinceros amigos, como o Irã, e com o apoio de mais de um bilhão de pessoas espalhadas pelo mundo, infelizmente são em sua maioria pobres, analfabetos e por isto a morte é a forma que eles encontraram para ganhar mesada vitalícia na Terra e o prestígio social no céu. Bem… morrer para depois ganhar dinheiro e prestígio ?!? Desculpe, nem eu entendi esta parte, mas…

Você soube que quando o Hamas assumiu o controle absoluto de Gaza, matou 550 pessoas em uma semana ? É, li uma notinha em algum lugar, parece que eram adversários políticos ou algo parecido… Outros foram presos ou conseguiram fugir. Nem me lembro muito da manchete, mas foi alguma coisa como “Hamas é eleito democraticamente”. Mas isto não é importante. O que quero dizer é que, para nós, simples mortais, a palavra morte soa estranho. Mas para eles, trata-se de uma dádiva. O problema todo é que Israel ainda não entendeu isto. Vira e mexe, quer trocar centenas de “militantes” palestinos, prisioneiros em Israel, apenas pelo soldado Gilad Shalit – vivo !!! Ué… cadê a proporcionalidade de que você tanto fala ? E por que eles não aceitam ?!?

Israel resolveu planejar milimetricamente cada alvo da ofensiva em Gaza para evitar justamente… as mortes. Ora, seria tão mais fácil, barato e rápido jogar em Gaza a mesma quantidade de foguetes que eles disparam há oito anos em nossas cidades – de forma aleatória… Outra vantagem desta idéia é que evitaria novamente a polêmica sobre a palavra proporcionalidade. Neste caso, substituiríamos ela por “justiça”, o que você acha ? Tenho certeza de que assim teríamos também o apoio da ONU, que pelo menos iria ficar quietinha, como costuma fazer de vez em quando.

Ah, desculpe, você já ouviu falar na Organização das Nações Unidas, né ? Foi exatamente a ONU quem, há apenas 60 anos, aprovou a criação de um Estado de Israel e de um Estado Palestino, em igualdade de condições. Mas os palestinos não concordaram… nem naquela época nem há alguns anos, com Arafat. Mas temos fé e somos insistentes. Aposto com você que, apesar de todas as pressões dos “militantes”, mais cedo do que você imagina será criado um Estado Palestino. Não sei como os árabes vão votar na ONU, mas uma coisa eu lhe garanto: a proposta terá o apoio de Israel, que reconhecerá o novo país como absolutamente legítimo. Quem viver, verá…

Só não sei por que o Estado Palestino não pode ser apenas em Gaza e na Cisjordânia. Por que eles exigem o local exato onde, depois de muito esforço, os judeus conseguiram transformar o deserto em verde, e a esperança no moderno Estado de Israel – um espaço de terra menor do que o nosso estado de Sergipe. Sinceramente, não acredito que seja por pura implicância ou infantilidade, nem por Israel ser o único país judeu existente. Ah, um dia você me disse que era porque a “Palestina” foi criada lá há muitos séculos, e os judeus expulsaram os palestinos daquela região. Até pode ser… mas, por favor, me ative a memória: quando a chamada “Palestina” foi fundada e por quem ? Quais eram as suas principais cidades ? Qual era a sua língua ? Qual era a sua a religião ? Qual era o nome de sua moeda ? Qual era a base de sua economia ? Qual era a sua forma de governo ? Você pode citar pelo menos um líder palestino antes de Arafat ? A “Palestina” foi reconhecida por algum país, qualquer um, cuja existência, naquele tempo ou agora, não deixa margem a outras interpretações ?

Agora vou lhe contar um segredo que poucos sabem, porque quase não é divulgado: cerca de 900 mil judeus sofreram perseguições, torturas e foram expulsos dos países árabes. É isto mesmo ! Em outra carta posso lhe contar melhor, detalhando tudo o que você quiser, mas agora queria que você me explicasse uma coisa: por que eles falam em “resistência” com a mesma frequência com que falamos em “Paz” ? E por que repetem tanto que pretendem destruir Israel, que querem varrê-lo do mapa ? Aqui entre nós: isto é tão absurdo quanto falar em exterminar a Alemanha, por exemplo, apesar de ela ter sido a protagonista de duas guerras mundiais, ocasionando milhões e milhões de feridos e mortes – fatais e psicológicas. Ah, e por falar na Europa, você acha que o “velho continente” realmente apoia estes “militantes” ? De jeito nenhum… Mas, na frente das câmaras, os políticos fazem todo aquele teatro, que nós conhecemos tão bem… ou você acha, sinceramente, que eles não vão aproveitar a oportunidade para conquistar a simpatia dos milhões de muçulmanos que lá vivem ? Ou são ingênuos a ponto de esquecerem os US$$$$$ advindos do petróleo daquela região… Em alguns países árabes chega até a ser engraçado… O Egito, por exemplo, tem um medo danado de também ser atacado (você sabia que o Hamas nasceu lá ?) e fica mais dividido do que as correntes dentro do PT…

Por que “importar” o conflito para o Brasil, um país cuja amizade entre árabes e judeus é considerada um exemplo mundial ? Por que fazem tantos atentados contra entidades judaicas tanto aqui como no mundo ?


Pichação “Fora Israel – Viva Resistência Palestina” em um
muro de uma rua movimentada de Recife. A “obra” é do
Partido Comunista Revolucionário, não legalizado no Brasil.
Trata-se de uma facção radical que prega a
luta armada e atos de terrorismo como via para a
implementação de um regime socialista no país.
Você sabia que o Brasil abriga vários grupos deste tipo ?


Se confundem Israel com judaísmo, tudo bem, eu concordo que há uma ligação umbilical entre os dois, mas o que não consegui ainda entender é a lógica deste ódio permanente pelo simples fato dos judeus viverem e de Israel existir. Eu vivo repetindo que não somos melhores ou piores do que ninguém, apenas queremos contribuir para o avanço da humanidade. E isto, mesmo com as guerras que constantemente enfrentamos, acho que estamos conseguindo. E sendo reconhecidos: os judeus receberam mais de uma centena de “Prêmios Nobel”. Deram ao mundo personalidades que alteraram a forma de pensar, como Freud; de entender, como Einstein; de rir, como Woody Allen; de se divertir, como Spielberg. E de viver, com descobertas médicas e tecnológicas fantásticas que ainda hoje curam doentes e ajudam o mundo a se desenvolver. Claro que você não sabe que muitas delas foram desenvolvidas por judeus ou israelenses porque quase não divulgamos nossos méritos. Confesso: nosso marketing é muito ruim, péssimo mesmo… Mas o que nos orgulhamos realmente é de estarmos permanentemente atentos para as tragédias humanitárias – em todos os sentidos – e tentar ajudar o mundo através de ações e exemplos de solidariedade.

Caro amigo: imagine o que Israel poderia produzir em condições pacíficas. Quanto mais poderia ser criado com os bilhões que hoje são investidos na indústria bélica ?

Bem, agora tenho que ir. Fique em paz, fique com o seu D”S, seja Ele quem for, mas, por favor, não se afaste de seus amigos sinceros.

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Publicado por em abril 13, 2009 em Uncategorized

 

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