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Tecnologia Israelense

18 abr

Ao investir em pesquisa e desenvolvimento, país se libertou da armadilha de vender produtos de baixo valor ou se transformar em plataforma de exportação para multinacionais

Mioma é um tipo de tumor benigno que se desenvolve no útero. Calcula-se que 77% das mulheres são portadoras de miomas, mesmo sem sintoma. Cerca de 25% precisarão fazer algum tratamento. Em geral, ele inclui uma cirurgia. Algumas vezes, é preciso retirar o útero. A medicina desenvolve técnicas para reduzir a necessidade dessas operações. Uma delas usa um equipamento de ultra-som de alta potência com um gerador de imagens de alta resolução por ressonância magnética que permite ver com detalhes o interior do corpo humano, sem necessidade de nenhuma incisão ou inserção de sondas. Com esse sistema, os médicos conseguem focalizar uma área minúscula dentro do útero e irradiar o calor produzido pelo ultra-som para o tumor. O mioma, ressecado, é absorvido pelo organismo. No mundo inteiro, 4 mil mulheres já tiraram o mioma assim, sem haver sequer internação. O primeiro desses aparelhos a funcionar na América Latina chegou no fim do ano passado ao hospital Barra D’Or, no Rio de Janeiro. Foi importado de Israel.

Esse aparelho é um dos exemplos de produtos de tecnologia de ponta em que Israel vem se especializando. Com metade do tamanho e da população do Estado do Rio de Janeiro, o país fez da inovação um objetivo estratégico tanto para as empresas quanto para o governo. Desde meados da década de 1990, sobretudo depois que a internet entrou em nosso cotidiano, produtos israelenses têm se destacado no mundo todo. Os microprocessadores Centrino e Pentium 4, coração de boa parte dos notebooks, nasceram nos laboratórios da Intel em Israel. O pen drive foi inventado no país. Também é de lá o primeiro firewall, o programa de proteção contra piratas. O primeiro programa de mensagens instantâneas de sucesso foi o ICQ, criado em 1996 por quatro jovens israelenses que o venderam dois anos depois à AOL por US$ 480 milhões. Israel é o segundo país em número de empresas listadas na Nasdaq, a Bolsa da nova economia de Nova York, atrás apenas dos EUA. Uma delas é a Tower Semiconductor, de chips de computador.

No Fórum Econômico de Davos de 2000, Bill Gates, fundador da Microsoft, afirmou que, “graças à qualidade da educação, Israel é hoje um dos mais avançados países do mundo”. A frase de Gates não explica tudo. Desde seu início, em 1948, a sociedade israelense apoiou governos comprometidos com investimentos na educação.

Um alto nível educacional é condição necessária, mas não suficiente para incentivar a inovação. A oferta de recursos humanos de alta qualificação coloca Israel ao lado de países como Alemanha, Japão, França e as nações escandinavas. Mas há uma diferença em favor dos israelenses. Na França e na Alemanha, o Estado do bem-estar social leva a certa aversão ao risco. Países que não valorizam o empreendedorismo têm ficado em posição desvantajosa na corrida global.

É aí que entra um dos traços marcantes da cultura judaico-israelense. Ele é sintetizado por uma expressão peculiar em hebraico, “chutzpah” (pronuncia-se rutz-pá). Em uma tradução livre, o termo se refere a uma postura audaciosa, determinada e até arrogante ante situações complexas, imprevistas e adversas. O chutzpah está ligado ao empreendedorismo. A capacidade de assumir riscos é um elemento crucial do desenvolvimento na economia moderna.

A partir dos anos 1980, tornou-se consenso para a sociedade israelense que o desenvolvimento do país exigia uma estratégia em sintonia com o mercado global. Na década seguinte, patentes se tornaram tão ou mais importantes que produtos e serviços de alto valor agregado. Foi nessa época que o governo colocou a economia do país em ordem. Além de domar a inflação, um programa de privatizações englobou o setor bancário, correios, telecomunicações, linhas aéreas, petróleo, energia, indústria aeronáutica e aeroespacial, navegação e parte do complexo da indústria bélica.

O Estado israelense passou a atrair investidores e multinacionais, muito mais de olho em seus centros de pesquisa e desenvolvimento que nas fábricas. Assim conquistou centros de pesquisa de empresas inovadoras como Motorola, Cisco e General Electric. Isso envolveu um movimento de saída e retorno dos talentos do país. Entre 1978 e 2000, mais de 14 mil cientistas e engenheiros deixaram Israel para trabalhar nos Estados Unidos. Juntaram-se a cerca de meio milhão de israelenses, boa parte moradores do Vale do Silício, coração da tecnologia, onde ficam empresas como Google e Apple. Segundo a pesquisadora AnnaLee Saxenian, da Universidade de Berkeley, em seu desejo de retornar ao país muitos israelenses convenceram seus empregadores e parceiros a abrir centros de pesquisa em Israel. Foi assim que aqueles que retornaram ajudaram a criar o conglomerado de empresas high-tech que hoje compõem o chamado Vale do Silício de Tel-Aviv. Israel também foi favorecido pelos movimentos migratórios decorrentes do colapso da antiga União Soviética. Ao longo da década de 90, o país atraiu mais de 1 milhão de imigrantes do Leste Europeu e da antiga URSS. Grande parte deles vinha com alta qualificação.

Em Israel, empresários e políticos raramente usam terno e gravata. É comum ver presidentes de empresas e grandes investidores vestidos casualmente. É de camisa, sem terno, que Yigal Erlich, fundador e principal executivo da Yosma, uma das mais importantes firmas de capital de risco, me recebe em seu escritório. Ele foi um dos responsáveis pela transposição da cultura de risco do Vale do Silício americano para Israel. Em 1984, ao assumir o papel de cientista-chefe do Ministério da Indústria e Comércio, incentivou parcerias entre universidades e o setor privado, criou incubadoras de empresas e montou fundos de capital de risco.

Erlich foi buscar investidores privados em países como EUA, Holanda, Cingapura e Espanha. A Intel Capital, braço de investimento da Intel, principal fábrica de microprocessadores do planeta, investiu em 25 empresas estreantes israelenses entre 2000 e 2003. O pólo de alta tecnologia do país já reúne mais de 4.500 empresas. Em 1993, Yigal afastou-se do cargo de cientista-chefe para se dedicar integralmente a sua empresa. Seus investimentos nutrem as pequenas empresas que nascem e se transformam em usinas de patentes de alta tecnologia.

Israel tem hoje mais de 300 fundos de capital de risco (no Brasil, são pouco mais de 80). O exemplo de Yigal ajuda a compreender que inovações não são meras descobertas realizadas por inventores. É preciso mais que criatividade. “Inovação é um negócio de alto risco, e a presença do governo é importante para ajudar a melhorar as condições”, afirma. Pessoas como ele criam pontes entre empreendedores, investidores e governo.

Em Israel, os ativos mais importantes não são recursos naturais, instalações industriais ou patrimônio. São indivíduos motivados e educados como Hagai Karchi. Com pouco mais de 40 anos, ele é o principal executivo da empresa de biotecnologia Evogene.

Hagai cresceu no ambiente dos kibutzim (propriedades comunitárias), onde se familiarizou com culturas de tomates em estufa. Conseguiu seu doutorado no famoso Instituto Weizman de Ciências, em Israel, e se integrou aos pioneiros da genética computacional, ramo de pesquisas que ganhou importância nos anos 90 com o Projeto Genoma. Como agricultor, Hagai se familiarizou com o manejo de cepas e enxertos para a preparação de linhagens de tomates mais adaptadas às condições locais. Agora, sua equipe organiza uma base de dados sobre os genes que constituem a espécie. Eles identificam a responsabilidade de cada gene por uma característica da planta. Com isso, é possível desenvolver melhores linhagens. Os principais clientes da Evogene são multinacionais de agronegócios, como a Monsanto.

A cultura empreendedora também estimulou a imunologista Tamar Jehuda-Cohen, da Smart Biotech. Ela desenvolveu um novo teste para detectar o HIV, o vírus da aids. Os testes até então disponíveis para HIV só dariam positivo passados vários meses da infecção. Nesse intervalo, quando a maioria dos testes dá negativo, a pessoa pode contaminar outras. O teste desenvolvido por Tamar diminui sensivelmente esse tempo. A partir de uma simples gota de sangue, pode-se descobrir se uma pessoa contraiu o vírus em até uma semana.

O teste de Tamar já está aprovado no México e em estágio final de liberação nos EUA, no Brasil, em Israel e na África do Sul. Tamar não é mais meramente uma pesquisadora. Para produzir a droga para o mercado, ela se associou a investidores e virou cientista-chefe de uma empresa. Os pesquisadores, em geral, fogem das chatices típicas de uma empresa. Tamar diz que a decisão de passar à condição de empreendedora se deveu a uma triste ocorrência em sua vida pessoal. Quando estava no fim da pesquisa, uma de suas filhas sofreu um acidente de trânsito e recebeu sete bolsas de transfusão de sangue. Uma delas estava contaminada com HIV. “Percebi que era hora de parar com a ciência básica e correr para salvar vidas.”

Yigal Erlich, ex-cientista-chefe do Ministério da Indústria e Comércio, iniciou a política de atrair fundos de capital de risco, como a Intel Capital

Apesar de estar sendo bem-sucedido em se tornar uma usina de propriedade intelectual high-tech, Israel tem problemas complexos. O primeiro é a falta de coexistência pacífica com seus vizinhos. O fracasso dos esforços de paz se deve à incapacidade da comunidade internacional de achar caminhos de conciliação entre israelenses e palestinos, aos extremistas que não reconhecem o direito de Israel à existência e também a israelenses que só confiam em soluções militares.

Outro problema é comum a várias democracias pelo mundo. Há evidências preocupantes de corrupção na política. Alguns casos de fraude eleitoral lembram a República Velha no Brasil, como o de mortos que têm votado seguidamente em distritos dominados por rabinos fundamentalistas.

Apesar desses problemas, Israel é um exemplo, principalmente para os países emergentes: o país demonstrou que não é necessário passar por todas as etapas para desenvolver uma sociedade. Não é investimento na infra-estrutura que promove o progresso. É a atitude e o investimento no capital humano. Israel é um caso inspirador de uma nação que optou por uma mudança drástica. Que não se contentou com propostas de crescimento gradual. Um país que se libertou da armadilha representada pela venda de produtos de baixo valor ou de se transformar em plataforma de exportação para multinacionais vendendo força física não-qualificada. Israel é um exemplo que convida a pensar e refletir nos caminhos do Brasil.

 
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Publicado por em abril 18, 2009 em Uncategorized

 

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