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>O diário de Hélene Berr

26 maio

>Parada de oficiais nazistas na Avenue Foch, de Paris, pouco tempo depois da conquista da capital francesa pelas tropas nazistas, em maio de 1942: desumanização gradativa imposta aos judeus franceses por seus algozes é assunto do comovente diário de Hélène Berr

Lyslei Nascimento lê o Diário de Hélène Berr, volume de memórias de uma jovem vibrante que percorreu o trajeto da felicidade em meio à cultura parisiense da Rive Gauche para a morte no campo de concentração de Bergen-Belsen

Ela, que se sentia às vezes tão sozinha na Paris da Ocupação,
tem agora a nossa companhia, dia após dia.
Sua voz, em meio ao silêncio daquela Paris, é tão próxima…

Patrick Modiano

A leitura de um diário deveria nos constranger a todos. Não pelo seu conteúdo, certamente, mas pelo ato em si de violação de um relato íntimo, particular. No entanto, constrangem-nos, na leitura do diário de Hélène Berr, as sombras que, como asas da maldade, vão toldando, aos poucos, nossa visão. Acompanhamos, como que paralisados, os passos de Hélène para a morte. Sabemos de seu fim, sua sepultura nas nuvens. No entanto, somos impelidos a seguir, com um nó na garganta, seus passos.

A Paris descrita pela jovem parisiense no início de seu diário é maravilhosa. Entre a rua Soufflot e o Boulevard Saint-Germain, como ela, nos sentimos num território encantado. Da casa de Paul Valéry, que autografa o livro da alegre senhorita: “Ao despertar, tão suave a luz tão belo esse vivo azul”, descobrimos suas leituras, romancistas e poetas de sua predileção e seus lugares preferidos. Quanto mais lemos, mais beleza encontramos: as aulas na Sorbonne, os amigos com quem discutia literatura, política, ética, filosofia. Os amores recém-descobertos, a luminosidade da horta, a luz do sol que faz com que o coração pareça ter a consistência da cera… tudo filtrado por uma rara consciência de que se está “amarrada a alguma coisa invisível” e que a linguagem falha, a palavra não vem e que se escreve, ela mesma confessa, é porque não sabe com quem conversar.

Esse mundo será, no entanto, pouco a pouco, eclipsado pela sombra da ocupação nazista na França. Talvez, sem que ela saiba, o registro do dedo ferido, de onde um médico retira algumas camadas de pele, seja o primeiro indício, metafórico, da escrita dolorosa que está por vir. “Os alemães vão ganhar a guerra”, vaticina um de seus amigos. “Mas o que nos tornaremos se os alemães ganharem?” ela, porém, pergunta em aflição. “Tanto faz! Não vai mudar nada…”, continua o amigo desiludido, cínico, a olhar as águas de um pequeno lago. Então, nesse breve diálogo e na sua resposta final, descobrimos o quilate com que é feito o espírito de Hélène: “Mas eles não permitem que todos aproveitem essa luz e essa água!” Então, nós, tantos anos depois das sombras que se abateram sobre a Cidade Luz, descobrimos por que necessitamos, ainda, ler os diários, ouvir os depoimentos, exumar, enfim, os textos que não podem morrer: somos corresponsáveis, com esses testemunhos, de não deixar que a memória se apague e o horror vença por esquecimento de suas barbaridades.

O relato jovial, com os olhos mergulhados em castanheiras em flor, começa a se turvar a partir do dia 29 de maio de 1942. Nas medidas impostas pelos alemães contra os judeus está a ordem de uso, por todos os judeus a partir de seis anos de idade, da estrela amarela em público, como signo distintivo. “Naquele momento”, registra Hélène, “eu estava decidida a não usá-lo. Considerava uma infâmia e uma demonstração de aceitação das leis alemãs. À noite, tudo mudou novamente: acho covardia não fazer isso, em relação aos que o farão”. Percebemos, nesse pequeno trecho, a faculdade de estabelecer julgamentos morais por meio de seus atos: a escolha consciente do uso da estrela, não obstante a imposição das forças de ocupação. Seguimos, ainda, sua reflexão: “Mas, se o usar, quero estar sempre elegante e digna, para que as pessoas vejam do que se trata. Quero fazer do jeito mais corajoso”. Percebemos, assim, que a imposição se transforma, após esse momento, para Hélène, em sinal de distinção, não de discriminação.

Aos poucos, também, os cidadãos franceses de origem judaica não poderão ocupar senão o último vagão do metrô. “Quando revejo esta semana”, escreve Hélène, “percebo que paira sobre ela [a rua] um céu sombrio”. Bens serão confiscados, direitos desprezados. Haverá denúncias, pilhagens, Raymond Berr, pai de Hélène, é preso e enviado ao campo de concentração temporário em Drancy, cidade poucos quilômetros ao norte de Paris. Após o verão de 1942, quase todos os judeus nele internos foram levados para Auschwitz. “Eu me sentia envolvida por uma espécie de bruma”, escrevia Hélène, “não falava nada”. Mas, afinal, qual foi o motivo da prisão do Sr. Berr? “O inspetor afirmou que papai teria sido dispensado se sua estrela estivesse bem costurada (…). Eu protestei. Mamãe também; ela explicou que a tinha afixado com grampos e botões de pressão para poder usá-la em todos os ternos. O homem continuou a dizer que foi isso que provocou o internamento: ‘No campo de Drancy, elas serão costuradas’.” A monstruosa incompreensibilidade e a horrível falta de lógica de tudo não possuem explicação.

Antoinette, mãe de Hélène, é assassinada numa câmara de gás em maio de 1944. Levado depois a Auschwitz, Raymond Berr é assassinado no fim de setembro. Presa e enviada, também, a Auschwitz, Hélène consegue sobreviver por cerca de um ano. Em janeiro de 1945, é transferida para Bergen-Belsen. O tifo havia espalhado a matança por todo o lugar. Morriam centenas a cada dia. “Toda manhã”, nos conta, perplexa, uma Hélène etérea, quase uma sombra, “os alemães acabavam de liquidar com revólver aqueles que já não conseguiam se levantar. Os doentes, então, para não passar por isso, faziam-se sustentar, de pé, pelos colegas sãos, para se manter enfileirados. Os alemães davam coronhadas nas mãos daqueles que os seguravam. Os doentes caíam, eles os amontoavam em charretes, tirando-lhes as botas e as roupas (…).” Doente de tifo, ela sucumbe em abril de 1945, dias antes da libertação do campo pelos ingleses.

Talvez, se Anne Frank tivesse sobrevivido às atrocidades do nazismo, teria sido uma jovem instigante como Hélène Berr. Ambas morrem em 1945, em Bergen-Belsen, e da mesma doença. Seus destinos e diários conversam entre si. Suas vidas não se perderam em vão. “Que este diário, um ato de sobrevivência, possa se propagar infinitamente e alimente a memória de todos aqueles cujas palavras foram apagadas”, desejamos, com Marriete Job, sobrinha de Hélène


Lyslei Nascimento é professora de Literatura Brasileira da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da mesma universidade


O Diário de Hélène Berr: um relato da ocupação nazista de Paris
Hélène Berr
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Editora Objetiva, 307 p.
R$ 39,90

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Publicado por em maio 26, 2009 em Judeus

 

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