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17 jun

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Personalidade:

As muitas vidas de Golda Meir
por Zevi Ghivelder


Foto Ilustrativa

O que mais a desgostava era quando associavam seus êxitos à condição de mulher. Ao assumir a chefia do governo de Israel, no dia 17 de março de 1969, perguntaram a Golda Meir em uma entrevista coletiva: “como a senhora se sente sendo mulher primeira-ministra?” respondeu: “não sei, porque nunca fui homem primeiro-ministro”.


Apesar da sua imagem de mulher determinada, sempre firme e forte, obstinada nas suas opiniões e decisões, ela assumiu aquela responsabilidade mais com a emoção do que com a razão. Seu filho, o violoncelista Menahem Meir, conta que estava em Nova York quando, na segunda semana de março de 1969, recebeu um telefonema da mãe. Ela dizia que estava a ponto de ser eleita primeira-ministra e, embora relutasse, teria que aceitar “para evitar uma guerra entre Moshe Dayan e Ygal Allon”. “O que você acha?” – perguntou. Menahem diz que, sem pretender conferir-se um crédito imerecido, está convencido de que seu apoio e de sua mulher, Aya, tiveram peso considerável na decisão de Golda.

Em dezembro de 2008, terão transcorrido três décadas desde sua morte. Durante 80 anos de existência, não houve um só momento de tédio na vida de Golda Mabovitz, nascida em Kiev, na Rússia imperial. Sua biografia politicamente correta pode ser escrita de forma sucinta. Em 1906, emigrou com a família para os Estados Unidos, radicando-se em Milwaukee, no estado de Wisconsin, onde trabalhou como professora primária. Casou-se em 1917 com Morris Meyerson, uma união infeliz da qual nasceram dois filhos, Menahem e Sarah. Sionista ardente desde a juventude, partiu com o marido para a antiga Palestina em 1921, onde integraram o grupo de fundadores do kibutz Merhavia. Como membro da Histadrut (Confederação Geral dos Trabalhadores) ascendeu a importantes posições na política doméstica pré-estado. Depois da proclamação da independência, foi nomeada embaixadora de Israel na União Soviética e, em seguida, ocupou os cargos de ministra do trabalho durante dez anos, de ministra das relações exteriores e de primeira-ministra, função que exerceu até 1974.

Um parêntese: foi na qualidade de chanceler que Golda veio ao Brasil, em 1959, sendo então recebida, com todas as honras, pelo presidente Juscelino Kubitschek. Sobre esta viagem, ela escreveu: “Sentia especial carinho pelo Brasil já que, entre outras coisas, foi o ilustre brasileiro Oswaldo Aranha quem presidiu a sessão de 29 de novembro da ONU, que decidiu pela partilha da antiga Palestina. Fiquei sensibilizada pela calorosa e festiva acolhida e muito impressionada pela impressão de energia e pertinácia que me foram dadas pelas cidades de Brasília e São Paulo. Um dos pontos mais significativos da visita foi a assinatura de um acordo que nos permitiu auxiliar aquele país a conquistar suas grande áreas áridas ou semi-áridas. Mas, um acontecimento permanece indelével em minha memória: ao assistir a uma sessão do Congresso brasileiro, ouvi encantada o senador Hamilton Nogueira saudar-me, não em português, mas no mais genuíno e fluente hebraico”.

De tudo que aconteceu em sua vida, repleta de turbulências, destaco quatro momentos que me parecem os mais emblemáticos de sua trajetória: os encontros secretos com o rei Abdullah, da Transjordânia, a temporada como embaixadora em Moscou, o difícil papel desempenhado na guerra do Yom Kipur e a reação ao massacre nas Olimpíadas de Munique, em 1972.

Durante os seis meses que antecederam a criação de Israel, Golda foi incumbida de se encontrar com o rei Abdullah, da Transjordânia, na tentativa de evitar o conflito armado que era fácil de se avistar no horizonte. Eles se reuniram pela primeira vez em novembro de 1947, Golda na condição de chefe do Departamento Político da Agência Judaica, acompanhada por Eliahu Sasson, perito em assuntos árabes. O encontro teve lugar em uma usina elétrica localizada em Naharaym, às margens do rio Jordão. Ela recordou: “Bebemos as costumeiras xícaras cerimoniais de café e depois começamos a falar. Abdullah era um homem de baixa estatura, belo porte e grande encanto. Não tardou a ir direto ao assunto; ele não se associaria a qualquer ataque árabe contra nós. Disse que permaneceria sempre nosso amigo e que, como nós, queria a paz acima de tudo. Afinal de contas, tínhamos um inimigo comum: o Mufti de Jerusalém, Haj Amin el-Husseini. E não só isso. Sugeriu ainda que voltássemos a nos encontrar após a votação nas Nações Unidas”.

Outro especialista em assuntos árabes, Ezra Danin, que também já tinha mantido contatos com o rei, informava a liderança judaica sobre a concepção do monarca a respeito dos judeus. Abdullah achava que a Providência havia dispersado os judeus, principalmente pelo mundo ocidental, para que estes pudessem voltar ao Oriente Médio trazendo a cultura européia, o que seria benéfico para toda a região. Mas, Danin julgava bizarra essa idéia e desconfiava das alegadas boas intenções do rei. Tinha razão. À medida que o tempo passava, os rumores de que Abdullah se filiaria à Liga Árabe se tornavam mais consistentes. No dia 10 de maio, quatro dias antes da proclamação da independência, Ben Gurion e Golda chegaram à conclusão de que valeria a pena tentar uma segunda conversa com o soberano. Dessa vez, porém, o rei se recusou a ir a Naharaym, por considerar por demais perigoso. Se Golda quisesse vê-lo, teria que ir a Amã, capital da Transjordânia, e ele não assumiria qualquer compromisso quanto à sua segurança e de Danin, que a acompanharia. Golda e Danin empreenderam a viagem a partir de Haifa. Ele falava árabe fluentemente e se disfarçaria apenas com uma kafiah sobre a cabeça. “Quanto a mim”, escreveu ela, “iria com as volumosas vestes escuras de uma mulher árabe; eu não falava uma só palavra de árabe, mas como uma esposa muçulmana, acompanhando o marido, era pouco provável que tivesse que dizer qualquer coisa a quem quer que fosse”. Para terem a certeza de não estar sendo seguidos, Danin e Golda trocaram várias vezes de carros e, em determinado ponto, apareceria alguém que os conduziria até Abdullah, na casa de um de seus auxiliares. Golda nunca esqueceu que o rei ali entrou pálido e gaguejante. No decorrer de uma hora de conversa, Abdullah disse que não mais poderia manter a palavra empenhada porque antes estava agindo por conta própria, mas agora era um entre cinco, sendo Egito, Síria, Líbano e Iraque os outros quatro. O rei perguntou: “Por que estão com tanta pressa para proclamar seu estado?” Golda respondeu: “Quem já está esperando há dois mil anos, certamente ignora o que seja pressa”. Em seguida, insistiu: “Vossa Majestade não compreende que nós somos seus únicos aliados nesta região? Se formos forçados à guerra, lutaremos e venceremos”. Ele respondeu: “Vocês têm o dever de lutar. Mas por que não esperam alguns anos? Desistam de suas exigências de livre imigração. Eu assumirei o controle de todo o país e vocês serão representados no meu parlamento”. Em face dessa proposta inviável, Golda e Danin se despediram e partiram de regresso a Tel Aviv, viagem que correspondeu a um filme de terror. O motorista transjordaniano ficava apavorado cada vez que o carro era parado por sucessivos postos de controle da Legião Árabe. Por isso, mandou que os dois saltassem a uma longa distância da usina elétrica. Já passava das duas da manhã e eles tiveram que caminhar no escuro sem saber se estavam na direção certa de Naharaym.



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Publicado por em junho 17, 2009 em Israel

 

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