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>Os palestinos não existem

18 jun

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Luis Dolhnikoff
confronta a alegação de que o Estado de Israel seria uma criação “artificial”, afirma que o “povo palestino” não possui, na realidade, uma identidade cultural ou étnica que o diferencie no interior do mundo árabe como um todo, mas defende a solução de dois Estados independentes

“Só existem duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana”, segundo Einstein. Parafraseando-o, creio que existem poucas coisas realmente universais, uma delas, a mentira. Não cabe aqui insistir nos infinitos motivos por que se mente. Grosso modo, trata-se de uma necessidade da sociabilidade. Não por acaso, há infinitos modos de mentir, e a vasta maioria é não somente inócua como necessária. O mesmo não vale, porém, para a mentira profissional, caso geral dos políticos, e para a mentira ideológica, caso particular do fascismo, como sintetizado por Goebbels: “Uma mentira muito repetida se torna uma verdade”. Uma mentira muito repetida é uma mentira muito repetida. Pois não se trata de questão de quantidade, mas de qualidade: a verdade possui outra natureza.

A natureza da verdade, não obstante, é dupla. Há a verdade da intenção e a verdade do fato. A verdade da intenção é o mesmo que a sinceridade: está-se dizendo a verdade quando se diz o que se pensa, ainda que o que se pense não corresponda aos fatos. Neste caso, não se trata de mentira, mas de engano. A verdade do fato é aquela que corresponde à realidade. Pois ainda que a apreensão da realidade não seja jamais unívoca, neutra ou ideal, e ainda que, no limite, toda descrição de um fato seja uma interpretação de um fato, há interpretações que cabem na moldura de um fato e outras que não cabem. As que não cabem são uma forma de mentira.

O Estado de Israel comemora, em maio de 2008, os sessenta anos de sua fundação. A data, como a verdade, tem caráter duplo. Por um lado, o grande júbilo pela criação e pela sobrevivência de um pequeno e heróico Estado-nação surgido nas condições e circunstâncias geopolíticas mais difíceis, tendo por fundo histórico imediato a tragédia da Shoá e por fundo histórico mediato dois milênios de diáspora e de anti-semitismo. Por outro lado, o não-pequeno amargor de a fundação de Israel significar o nascimento da última grande mentira envolvendo a história judaica, tão cheia de grandes mentiras (como a dos Protocolos dos Sábios de Sião) quanto de grandes tragédias. Esta mentira é, ainda uma vez, dupla: afirma, de um lado, que Israel é um Estado artificial, e, de outro, que é o responsável pela miséria geopolítica dos árabes nas últimas décadas conhecidos como palestinos.

A dupla grande mentira sobre Israel é, porém, unívoca na sua condição de ser uma mentira de tipo fascista. Não importa que um de seus principais fiadores seja a esquerda internacional; não há aqui contradição incontornável, pois desde Stálin, pelo menos, sabemos que pode haver mais semelhanças entre o fascismo e a esquerda do que seria natural supor. Tampouco importa que o outro fiador dessa mentira sejam as lideranças políticas árabes e muçulmanas em geral, e as lideranças políticas palestinas em particular. Não é impossível nem inverossímil, sequer incomum, que muitos compartilhem uma mesma mentira (como os alemães durante o nazismo).

Não é difícil repetir os argumentos que demonstram ser falsa a afirmação da “artificialidade” de Israel. Primeiro, porque tal afirmação traz um “somente” implícito: só se justifica se somente Israel for “artificial”. Caso contrário, seria uma afirmação ridícula por sua obviedade, como a de que a rosa é um vegetal. Se não há nada mais vegetal do que uma flor, não há nada mais artificial do que um Estado. Dito de outro modo, não existem Estados naturais. Estados são criações geopolíticas. Todas, portanto, igualmente “artificiais” (e todas diferentes; não há dois Estados com a mesma história; a criação de cada um dos quase duzentos Estados existentes hoje no mundo foi, portanto, particular, apesar de eventuais semelhanças em certos grupos geográficos ou de possíveis proximidades em alguns momentos históricos; se a criação de Israel foi particular, compartilha com todos os demais Estados esta condição paradoxal: ser comum em sua particularidade). Segundo, porque Israel é, na verdade, um dos Estados menos “artificiais”, tendo o povo judeu uma das histórias mais antigas e melhor documentadas. Por fim, a criação de Israel é obra da comunidade internacional por meio da ONU. Ou seja, traz a marca de nascença inquestionável da legalidade e da democracia, pois fruto de uma votação, a da Assembléia Geral.

O argumento da “artificialidade” se apóia, grosso modo, no fato de a maioria da população do novo país advir de um fluxo migratório, fruto, por sua vez, de um movimento político, o sionismo. O sionismo, porém, é tão legítimo, como movimento nacionalista surgido no século 19, quanto qualquer outro dos inúmeros movimentos nacionalistas surgidos no século 19, um dos momentos mais intensos da história dos nacionalismos; o sionismo tem, portanto, toda a legitimidade de seu momento histórico. O fluxo migratório judaico não é menos legítimo. Em primeiro lugar, porque a Palestina era, à época, não um Estado, mas colônia de um império (esta sim artificial; o território da então Palestina britânica fora definido pelo colonialismo inglês a partir do rearranjo de ex-colônias do Império Otomano, que dominara a região nos últimos séculos antes da 1ª Guerra). Em segundo lugar, porque havia um importante núcleo judaico original na região – que correspondia ao antigo Reino de Israel. Em terceiro lugar, pelas tão antigas quanto profundas ligações da cultura e da história judaicas com o território. Em quarto lugar, porque a migração judaica não foi afinal determinada predominantemente pelo sionismo, mas pelo nazismo, ao desalojar milhões de judeus europeus e ao negar aos sobreviventes qualquer esperança de viver em segurança na Europa. Em quinto lugar, porque o momento histórico da criação de Israel foi marcado por vários grandes fluxos migratórios mundiais – sendo o maior o que envolveu milhões de indianos muçulmanos para o território do nascente Paquistão (plenamente artificial, no sentido de ser fruto de um programa político de um partido – aliás, religioso).

A segunda parte da grande mentira de tipo fascista que envolve Israel é ser ele o responsável pela miséria geopolítica dos árabes hoje conhecidos como palestinos. Pois como no caso do “somente” implícito na primeira parte, há aqui implícito um “único”: Israel seria o único – ou o grande – responsável por sua miséria. Mais uma vez, duplamente; por sua própria criação, gerando o primeiro importante fluxo migratório árabe, e pela ocupação dos territórios da Cisjordânia e de Gaza em 1967. É preciso, portanto, dizer e redizer que, se existe um grande responsável pela miséria geopolítica dos árabes da ex-colônia britânica, este responsável são suas próprias lideranças. Pois foram elas os únicos autores de dois erros históricos catastróficos e determinantes (de que israelenses e palestinos seriam as vítimas); um, recusar – ao contrário de Israel – a partilha da ONU de 1947, cuja aceitação teria resultado na criação do Estado palestino já em 1948; dois, adotar como objetivo estratégico no período subseqüente, entre 1947 e 1967, a destruição de Israel, em lugar da criação de seu Estado nas áreas então sob domínio árabe – ou seja, Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza. Fato este que está na origem da Guerra dos Seis Dias e da subseqüente ocupação dos territórios (em parte já desocupados, como no caso de Gaza).

Mentiras de tipo fascista também são conhecidas como verdades de tipo orwelliano, como nos slogans do livro 1984: “Guerra é paz”. Trata-se, na realidade, de um subtipo da mentira fascista, caracterizado não pelo mero falseamento deliberado dos fatos, mas por sua completa inversão. Golda Meir afirmou, certa vez, que não existia um povo palestino. É até hoje vilipendiada por parte importante da esquerda como se estivesse decretando a inexistência de um povo visando preparar objetivos inconfessáveis. A verdade é o contrário disso, pois a mentira está na afirmação da existência histórica de um povo palestino. O que Golda Meir estava, em suma, dizendo, era simplesmente isto: não existia, historicamente, um povo palestino – mas existia um povo judeu.

Não há uma língua palestina. Não há uma literatura palestina. Não há heróis históricos palestinos (ao menos não antes de Arafat e de seu antecessor, o Mufti de Jerusalém, aliado entusiasmado de Hitler). Não há uma histórica geopolítica palestina. Não há uma cultura palestina. Não há, em suma, uma História palestina. E não há porque, historicamente, não existe aquele que seria o sujeito dessa história, o povo palestino. Cuja emergência data dos anos 1960. E cuja inexistência explica, em grande parte, os erros de 1947-1948.

Os que afirmam a existência do povo palestino pretendendo, com isto, que este tenha uma existência robusta, ou seja, baseada numa história profunda e/ou numa caracterização étnica, são obrigados a afirmar, por coerência, que existe um povo coreano-do-norte e um povo taiwanês, assim como teria existido, até recentemente, um povo alemão-oriental e um povo vietnamita-do-norte. Mas nada disto é verdade. Em nenhuma das múltiplas definições de povo a população do Vietnã do Norte poderia ser enquadrada, assim como não o pode a população da Coréia do Norte. No máximo, existe um povo vietnamita e um povo coreano; aquele dividido em dois Estados até recentemente (como os alemães), este ainda hoje dividido. O chamado “povo palestino” é, na verdade, apenas uma parte do povo árabe, não tendo, em relação aos demais árabes da região, qualquer distinção significativa, seja lingüís­tica, histórica, cultural ou geopolítica. Neste último aspecto, toda a região fora, por vários séculos, parte fragmentada do Império Otomano, até ser re-subdividida, de modo igualmente arbitrário, pelo Império Britânico e pela França. Não obstante, o nascimento dos novos países da região, num longo processo de descolonização que duraria até os anos 1960, não corresponde, de modo algum, à emergência de Estados que seriam, afinal, a tradução geopolítica de entidades étnico-lingüísticas. Pois jamais existiu um povo jordaniano, um povo kuwaitiano, um povo iraquiano, um povo saudita. Este último, aliás, deriva seu nome de certo Ibn Saud, que passou a governar parte da Península Árabe no início do século 20 com apoio britânico, no contexto da disputa da Inglaterra com os turcos. De modo semelhante, o Iraque jamais foi qualquer unidade geopolítica até o Foreign Office traçá-lo num mapa, nos anos 1920. Afirmar a existência de um povo iraquiano, ao menos no sentido em que existe um povo chinês (na verdade, povo han), um povo aborígine australiano ou um povo curdo é, no limite, mentira. O chamado “povo” iraquiano é apenas o subconjunto do povo árabe que se viu historicamente confinado numa unidade geopolítica arti­ficial (esta, sim) chamada Iraque. Assim como o “povo” jordaniano, o “povo” sírio, o “povo” libanês (os últimos criados pela França), e o “povo” palestino – criado pela mudança estratégica das lideranças árabes da região nos anos 1960.

Até então, o termo palestino era, na verdade, rejeitado pela maioria dos árabes, e com razão: não passa de uma invenção do colonialismo inglês, ao criar, em 1920, uma província e lhe dar o nome de Palestina, retirado da antiga história da região, assim conhecida no tempo do Império Romano (e apenas então, e apenas pelos romanos). Nos anos 1940, 50 e 60, a idéia geopolítica dominante no mundo árabe era o pan-arabismo, segundo o qual existe uma unidade étnico-lingüística árabe, artificialmente subdivida, primeiro, pelo Império Otomano, em seguida pelo colonialismo europeu. Assim, o território da agora ex-Palestina britânica, dividido, entre 1948 e 1967, entre Israel, Egito (Gaza) e Jordânia (Jerusalém Oriental e Cisjordânia), deveria integrar, no futuro, uma grande unidade geopolítica árabe que englobaria o Líbano, a Síria e a Jordânia – para começar. Foi a derrota árabe – e não palestina – na Guerra dos Seis Dias, em 1967, que afinal impôs uma mudança estratégica nas lideranças árabes locais, fazendo-as, por fim, adotar decididamente o que fora até então uma entre outras opções (e não a predominante). Em suma, se Israel não seria destruído, pela incapacidade militar árabe consignada nas consecutivas derrotas, e se o pan-arabismo morrera pela consolidação dos aparatos político-burocráticos de poder em cada uma das ex-unidades coloniais agora transformadas em Estados, só restava um modo de reverter ao menos em parte a derrota histórica que fora, para os árabes da região, a vitória da causa israelense: a saída política nacionalista. Para isto, era preciso que existisse um agente político relevante a embasá-la, isto é, a justificar a reivindicação tardia de uma parte da antiga Palestina britânica. Ou seja, o “povo” palestino.

Grosso modo, há dois tipos de Estado-nação na sua relação com unidades étnico-lingüísticas: ou esta unidade preexiste, e cria seu Estado, ou um Estado é criado e, com o tempo, determina o surgimento de uma unidade lingüística. Os países das Américas são o paradigma do Estado anterior ao povo; assim, o povo brasileiro só existe porque existe o Estado brasileiro, como os povos argentino e norte-americano. Dito de outro modo, se não existisse o Estado brasileiro, não existiria nenhum povo brasileiro – não porque ficaria então oculto, mas porque não existiria de fato, isto é, não teria sido criado. Já o povo curdo existe a despeito de não existir um Estado curdo – que, se e quando existir, será fruto da existência prévia do povo curdo. O povo palestino é fruto de um movimento político (assim como o povo brasileiro é, portanto, fruto de uma entidade geopolítica criada pelo Império Português). A criação recente do povo palestino não é, porém, mais artificial do que a de outros povos. Mesmo porque os povos, como os Estados, não são fatos da natureza.

Como em relação à terra, partilhar a verdade é dividi-la. Ao contrário, porém, da terra, a verdade, quando dividida, fica maior. O caminho para a paz no Oriente Médio passa pela divisão da terra, mas também pelo compartilhar da verdade. E a verdade é que, por caminhos inteiramente distintos, tanto o atual Estado de Israel quanto um futuro Estado palestino são igualmente legítimos. Portanto, o reconhecimento do direito à existência de um Estado palestino não pode e não poderá nunca se dar à custa de qualquer questionamento da legitimidade do Estado de Israel. Questionamento jamais realmente abandonado pelo movimento palestino, que dele obtém, não sua força, mas sua trágica fraqueza.


Luis Dolhnikoff é escritor e ensaísta

Revista 18

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Publicado por em junho 18, 2009 em Palestinos

 

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