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19 jun

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A MORTE DE HITLER

By Luiz Nazario

Raio-x da cabeça de Hitler (The National Archives, Londres, CN 4/13).

Raio-x da cabeça de Hitler (The National Archives, Londres, CN 4/13).

Às 15h30 do dia 30 de abril de 1945, no seu Bunker, o ditador nazista Adolf Hitler, após planejar seu fim em todos os detalhes, matou-se com um tiro enquanto Eva Braun se envenenava engolindo uma cápsula de cianureto. O planejamento incluía 180 litros de combustível a serem usados para queimar os dois corpos. Hitler estava assustado com a notícia da morte de Benito Mussolini e temia cair vivo nas mãos do Exército russo. Antes de matar-se, apertou a mão dos funcionários do Bunker, entre os quais a de sua secretária particular Traudl Junge. Pouco depois, quando esta dispensava cuidados ao pequeno Helmut, filho do Ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, ela ouviu o tiro. Os cinco filhos de Goebbels seriam em seguida envenenados pela mãe, antes que o casal se suidasse também com cápsulas de cianureto.

O cadáver de Hitler foi cremado no Bunker em 1945, mas não totalmente. Com as tropas soviéticas obcecadas em encontrar Hitler, grupos competiam numa verdadeira caça ao troféu, até que um soldado do Exército Vermelho, sete horas e meia depois do suicídio, encontrou os corpos de Hitler e Eva Braun, lançados numa cratera aberta por uma bomba explodida perto do Bunker. Os especialistas forenses ficaram maravilhados ao perceber que as arcadas dentárias do líder nazista estavam intactas: “Essas são as chaves”, disse um deles. Os corpos foram enterrados num terreno de Magdeburgo, em zona sob jurisdição soviética e de acesso proibido pela KGB. Foram conservados, porém, o crânio com o buraco da bala e as arcadas dentárias de Hitler. O Coronel Vassily Gorbushin, chefe da inteligência soviética, encarregado da identificação dos restos presumidos de Hitler, incumbiu a jovem Elena Rzhevskaya, junto com dois oficiais superiores, de levar as mandíbulas de Hitler, através da assistente Käthe Häusermann, ao dentista do Führer, Hugo Blaschke.

Nas ruínas de Berlim, segurando uma pequena caixa, Rzhevskaya presenciou a capitulação a 8 de maio de 1945, quando o alto comando alemão rendeu-se às forças russas, britânicas e americanas. Havia rivalidades entre os vencedores desde o momento da vitória, e elas prosseguiriam durante a Guerra Fria. Apenas os dois oficiais que a acompanhavam sabiam o que Rzhevskaya carregava na caixinha. E ela celebrou a vitória bebendo com os colegas, a taça de vinho numa das mãos, na outra a caixinha com as mandíbulas de Hitler. Finalmente encontrado, o dentista confirmou serem aquelas arcadas as de seu paciente. Rzhevskaya só revelou sua missão secreta em 1960, quando publicou um livro contando a história. “Para mim foi um momento de imensa solenidade e emoção, era vitória”, ela declarou ao The Guardian, entrevistada em 2005, aos 85 anos de idade.

Lev Bezymenski, oficial da inteligência soviética, escreveu em Der Tod von Adolf Hitler, que a KGB ordenara-lhe a criação de versões diferentes da autópsia de Hitler para fins de propaganda. Parece que Josef Stalin desejava cercar a morte de Hitler de mistério. Mas o grande historiador inglês Hugh Trevor-Roper, em seu livro The Last Days of Hitler (“Os últimos dias de Hitler”), publicado em 1947, pode reconstituir os fatos dessa morte mesmo sem acesso aos arquivos soviéticos, pois obteve, como oficial MI6, os raios-X da cabeça de Hitler, e os comparou com os esboços das mandíbulas que o dentista Hugo Blaschke desenhara de memória, comprovando a coincidência.

Em 1960, até o revisionista inglês David Irving chegou às mesmas conclusões comparando as fotos da KGB das mandíbulas de Hitler encontradas no Bunker, as chapas de raio-X e o desenho do dentista: todas as provas coincidiam, estabelecendo definitivamente a identidade do morto. Em 1970, o especialista forense norueguês Dr. Reidar Sognnaes, examinando os mesmos documentos, chegou mais uma vez às mesmas conclusões.

Em 1970, os soviéticos desenterraram os restos de Hitler por ordem de Yuri Andropov, então chefe da KGB. O objetivo era cremar totalmente o que restasse do Führer para que o corpo não pudesse tornar-se um objeto de culto. Em reportagem de abril de 1995, a revista alemã Der Spiegel reproduziu uma carta datada de 13 de março de 1970, enviada por Andropov ao então secretário-geral do PC soviético, Leonid Brejnev, justificando as medidas. As cinzas de Hitler foram então espalhadas no rio Elba. Era a “operação Mito”. O crânio de Hitler foi, contudo, conservado na URSS: em 1993, a FSB, revista oficial dos serviços de segurança russos, divulgou que o órgão ainda mantinha aquela “relíquia”, assim como seus trajes militares e objetos de líderes nazistas – broches, estojos para cigarros e jóias – encontrados no Bunker. Segundo o chefe da KGB na antiga Alemanha Oriental, Serghei Konratschov, as mandíbulas e parte do crânio estariam guardadas em Moscou numa das cinco caixas desenterradas em 1970 em Magdeburgo.

A autenticidade das “relíquias” foi questionada pelo historiador alemão Werner Maser. Mas o escritor inglês Peter Watson e a veterana jornalista russa Ada Petrova, autores do livro A morte de Hitler – A história completa, com novas provas surgidas dos arquivos secretos russos (1996), tiveram acesso às “relíquias”, conservadas por Anatoli Propenko, diretor do Arquivo de Troféus Especiais do Estado, em Moscou: as mandíbulas e parte do crânio de Hitler, uniformes pessoais chamuscados, 42 desenhos e aquarelas do Führer, seu álbum de família e seis pastas com documentos sobre seus últimos dias no Bunker, num dossiê conhecido na NKVD. (predecessora da KGB.) como Arquivo Operação Mito, Dossiê I-G-23.

Segundos o dossiê, com a saúde comprometida após o atentado de 1944, Hitler exalava um mau cheiro insuportável; Albert Speer odiava quando o Führer tirava o paletó, sempre manchado de comida, para trabalhar em mangas de camisa. Sua flatulência era incontrolável, e a vida no Bunker era um horror. Ainda segundo Peter Watson e Ada Petrova, a foto muito divulgada do cadáver de Hitler era na verdade do corpo de seu dublê, Gustav Weler. Os corpos de Hitler, Eva Braun e da família Goebbels foram enterrados secretamente em Magdeburgo, na Alemanha Oriental; depois, desenterrados e cremados, por ordem de Andropov.

Em 1995, durante uma pesquisa sobre a morte de Hitler, a chapa de seu crânio foi encontrada em Londres, em meio a documentos militares, com registros médicos mostrando que ele teria cistite e ferimentos no ouvido. O raio-X fora requisitado pelo médico particular do Führer, Dr. Theo Morell, após o atentado de julho de 1944, no qual Hitler sofrera ferimentos internos. A chapa foi tirada pelo Dr. Giesing no Hospital do Exército, em Ratsenburg em setembro de 1944. O aspecto especialmente macabro do raio-X de Hitler é ressaltado pela concentração da morte nessa única imagem: 1) pela própria natureza do raio-X na revelação do esqueleto do paciente; 2) pelo fato de Hitler ter acabado de escapar da morte no atentado de julho de 1944; 3) por estar Hitler próximo da morte que daria a si próprio; 4) por Hitler personificar a morte através de sua política de guerra e de genocídio.

Como os russos não abriram seus arquivos senão após o fim do comunismo e como não houve testemunhos oculares do suicídio de Hitler, alguns historiadores formularam hipóteses fantasiosas sobre como Hitler teria se matado. Em abril de 1995, o jornal alemão Bild divulgou a teoria do historiador britânico Hugh Thomas de que faltara a Hitler coragem de matar-se com um tiro, tendo sido então estrangulado por um de seus ordenanças, o oficial das SS Heinz Linge, depois que este tentara em vão introduzir uma cápsula de cianureto na boca do ditador.

Essa hipótese fantasiosa contraria a autópsia oficial e o testemunho fidedigno da secretária de Hitler, que se encontrava no Bunker, e que ouviu o tiro e viu em seguida os corpos de Hitler e Eva Braun sendo carregados para fora. O testemunho de outro ordenança de Hitler confirmou a morte por tiro (a única dúvida era se ele atirara na boca ou na têmpora). E Hitler também tomara, antes do tiro, como comprovou a autópsia, uma cápsula de cianureto para garantir sua morte.

Em 1996, um programa da Spiegel TV noticiou que uma cova descoberta sob o quartel-general do antigo Serviço de Inteligência Soviético, em Magdeburgo, na antiga Alemanha Oriental, contendo 32 esqueletos não identificados, poderia conter os restos família Goebbels e de Eva Braun. Mas nenhum fato novo sobre os restos de Hitler veio mais à tona desde as provas apresentadas por Watson e Petrova em 1995, que confirmaram a morte do Führer por bala no crânio, em 1945, e a queima de seus ossos em 1970, com exceção do crânio, conservado em Moscou. As novas evidências corroboram as descrições da morte de Hitler por Trevor-Roper em 1947.

Em 2000, a Rússia exibiu os fragmentos do crânio de Hitler com o buraco da bala (estando muito frágeis as mandíbulas foram apresentadas apenas em fotos). A exposição “A agonia do ‘Terceiro Reich’: A Retribuição” teve lugar nos Arquivos Federais de Moscou, marcando o 55º aniversário do fim da guerra, e incluía os documentos do serviço secreto soviético que identificaram os restos de Hitler. A diretora da exposição, Aliya Borkovets, declarou não haver qualquer dúvida sobre a origem dos restos expostos e os especialistas confirmaram a autenticidade daquele pedaço de crânio.

Fragmento do crânio de Hitler com buraco da bala.

Crânio de Hitler com buraco de bala.

Em 2002, pouco antes de morrer, a secretária de Hitler de 1942 até 1945 prestou um longo depoimento no filme Im toten Winkel – Hitlers Sekretärin (“Eu fui a secretária de Hitler”, Áustria, 2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, recordando os dias quase irreais que passou trabalhando no Bunker. O filme resume-se a uma longa entrevista, mas o conteúdo do depoimento de Traudl Junge, que também serviu de base para algumas das reconstituições do revisionista Der Untergang /The Downfall (“A queda: Os últimos dias de Hitler”, 2004), de Olivier Hirschbiegel, consegue manter nossos olhos grudados na tela.

Note-se que, antes de Der Untergang outros filmes já haviam sido realizados sobre os últimos dias de Hitler, com interpretações tão notáveis quanto a de Bruno Ganz neste filme: a de Albin Skoda, em Der letzte Akt (1955), de Georg Wilhelm Pabst; a de Billy Frick, em Is Paris Burning? (1966), de René Clément; a de Frank Finlay, em The Death of Adolf Hitler (1973), de Rex Firkin; a de Alec Guinness, em Hitler: The Last Ten Days (1973), de Ennio De Concini; a de Anthony Hopkins, em The Bunker (1981), de George Schaefer; e a de Leonid Mozgovoy em Molokh (1999), de Aleksandr Sokurov.

Traudl Junge havia prestado consultoria na reconstituição do Bunker em Der letzte Akt e aparecido em alguns documentários. Em seu último e mais consistente depoimento, ela rememora os fatos com precisão, sem conseguir esconder, contudo, a emoção que a toma quando, recordando a morte de Hitler, sentiu-se traída, como se tivesse, agora, como todo alemão sobrevivente ao nazismo, que pagar sozinha, sem o escudo protetor do Führer a chamar para si toda a responsabilidade, pelos crimes do regime. Percebendo a morte aproximar-se, aos 81 anos de idade, ela buscou, através de seu depoimento, algum tipo de remissão da culpa profunda de ter comungado do ideal macabro do ‘Terceiro Reich’ no centro mesmo do poder e na intimidade insalubre dos líderes, até a apocalíptica derrocada.

 
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Publicado por em junho 19, 2009 em Geral

 

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