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>Os mistérios do intestino de ovelha

20 jun

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Você tem intestino de ovelha? – Eu perguntei lá por de cima de um freezer para o velhinho marroquino sentado em seu açougue especializado em carne ovina, no Shuk Ha’Carmel.

Ele fez cara de quem não entendeu bem, se curvou para frente na sua cadeira lá no fundo do açougue e eu repeti a pergunta. Era um sujeito nem assim tão velho na verdade, com cabelo de escovinha meio grisalho, pele escura e um “bigodinho de cobrador” branco.

– Mas prá que você quer intestino de ovelha?!

Vai explicar agora! Vou dizer que sou estudante de desenho industrial, que estou fazendo um projeto, que parte importante da matéria prima que eu decidi usar para dar o toque orgânico que eu quero é intestino. E que intestino de vaca tem o calibre grande demais para o que eu quero.

É bem provável que se eu dissesse alguma coisa assim ele ia me mandar procurar minha turma, parar de inventar moda e ir estudar alguma coisa mais útil. Já tive experiências deste tipo quando fui comprar, por exemplo, cordões de sapato. Daí que eu respondi:

– Vou fazer lingüiça (com trema, por favor!).

– Ahn! Alguma coisa que você leu na internet? – ele ainda me provocou, com sotaque que só os velhos marroquinos em Israel têm.

– Não! Receita de família. Coisa que minha avó costumava fazer. Tem que ser de calibre menor que intestinos de boi, para ficar bom.

Mentira, claro. Minha vó nunca foi de encher lingüiça. Nem em termos, nem literalmente.

Infelizmente a mentira o interessou. E eu, diabos, que só queria 250 gramas de intestino de ovelha limpos. Só isso. Suando para passar despercebido pela sabatina do velhinho que parecia se divertir com a situação.

– E você sabe limpar intestino?

Sai dessa agora, seu Gabriel. Duas semanas brincando com intestinos de vaca que eu adquirira antes (na mesma feira livre, mas no Açougue do Chaim, mais para cima) me ensinaram muito. O que eu sei de cozinha artesanal é pouco, se não nada. E o que eu cheguei a ver no Youtube a respeito não me tornam um expert no assunto. Mas respirei fundo e tentei minha sorte:

– Mas é claro! Ajudei muito minha avó a fazer isso! Têm que virar as tripas do avesso, colocar em água por 24 horas, e depois raspar.

– É isso aí. – ele sorriu aprovando. – Virar do avesso. É uma pena, mas eu não tenho. Quem sabe no Shuk do Shchunat Ha’Tikwa (Bairro da Esperança… parece nome de favela, e não está muito longe de ser uma – e longe prá diabos). Aqui nas redondezas você não vai achar.

Depois de uma calorosa despedida (afinal, eu tinha sido aprovado com louvor ao questionário do velhinho) me debandei dali para tentar minha sorte com intestino de porco.

Blog Des-Oriente

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Publicado por em junho 20, 2009 em Israel

 

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