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De volta a Toledo

10 mar

por Israel Blajberg – Todos recomendaram, não deixe de ir a Toledo… de repente, uma curva do caminho revela ao longe elegante calota esférica sobre suave elevação, o casario denunciando que ali estava uma parcela do Patrimônio da Humanidade…

Emoldurada pelo Rio Tejo, que descreve um elegante meandro por quase toda sua periferia, do lado aonde ele não corre o famoso Alcázar de Toledo guarnece o único acesso terrestre. O casco histórico ocupa uma área relativamente pequena. Do centro, onde fica a Catedral, alcança-se rapidamente a Juderia, o antigo bairro judeu, naquela que um dia fora conhecida como a Jerusalém do Ocidente, berço de sábios rabinos.

O dia está particularmente frio. Havia nevado um pouco, o que não é muito comum. A baixa temperatura afugenta os turistas, assim percorro quase sozinho as ruelas onde antigamente efervescia a vida da Toledo Judaica. Tudo estaria exatamente como ha 500 anos atrás, não fora alguns poucos carros que lentamente se esgueiram entre as paredes. Algumas vielas são tão estreitas que abrindo os braços consigo tocar as duas paredes…

No inverno os dias são curtos, e ao entardecer sem sol, as sombras dos prédios de no máximo 2 andares escurecem a Juderia. Percebo que estou sozinho perdido no silencio … o clima me faz divagar, como se estivesse realmente naquele passado distante… Parece-me que a qualquer momento algum judeu poderia sair de uma daquelas esquinas, quem sabe a figura serena de Samuel HaLevy, o Embaixador e Tesoureiro d El Rey Pedro I de Castilla, estou percorrendo as mesmas ruas por onde nossos irmãos e irmãs abandonaram penosamente Toledo em direção ao exílio.

As ruas estão cada vez mais desertas, dado o frio intenso. Mas estariam mesmo? Sinto que me acompanham. Chego a imaginar que me roçam os ombros. Tenho uma estranha sensação de que não é a primeira vez que passo por aquelas vielas… A multidão segue em silencio, não se ouve aquele burburinho característico dos ajuntamentos judaicos. Afinal, estavam deixando a Pátria, apesar de tudo…

Assim como Samuel, que acolheu El Greco em sua casa, também sou um Levita, Um gene perdido despertou em mim em plena Juderia. Sim, eu estive ali, no meio das filas dos irmãos que partiam … meus antepassados haviam chegado pouco depois do inicio da Diáspora Judaica no ano 70 DC… mas ainda não terminara a busca do nosso destino …

Corria o ano de 1492. Madrid era ainda um pequeno povoado desconhecido. Na Corte de Toledo, os Reis Católicos Fernando de Aragon e Isabel de Castilla haviam resolvido expulsar os judeus de Espanha. Numa ultima tentativa, o Conselheiro Real Isac Abravanel tenta reverter o decreto. A suplica de Abravanel não fora em vão… elevando-se ao firmamento, durante 5 séculos ressoou pelos buracos negros do Universo, ate que um dia encontrou bons ouvidos …

Isac Abravanel nunca imaginou… mas um dia em terras de España haveria de reinar um soberano justo e humano, Juan Carlos I, de Bourbon e Battenberg, que aos 31 de marco de 1992 adentraria em Madrid a primeira sinagoga erguida em Espanha nos últimos cinco séculos, e diante da sua Reina Sofia, do General Chaim Herzog, Presidente do Estado de Israel, e de um punhado de descendentes daqueles mesmos judeus expulsos pelo Reis Católicos, declararia ao Mundo seu desejo real de que a Paz viesse para todos os Povos…

A noite vem chegando. Preciso retornar a Madrid. Procuro a saída da Juderia. Mais uma vez sinto que me acompanham. Toledo é uma cidade plena de lendas. Nem todos gostam de passar de noite por perto do antigo anfiteatro romano, onde faziam Autos de Fé. Nossos irmãos se foram, mas as criaturas ficaram, e a noite aparecem de quando em quando pelos meandros do Rio Tejo. Tangidos pela intolerância, os judeus de Sefarad se espalharam pelos quatro cantos do mundo civilizado de então.

A Humanidade tanto deve aos que percorrendo o mesmo caminho que hoje trilhei partiram sem saber que um dia seus descendentes, os Sefaradim, tão importante papel desempenhariam nos negócios, nas artes, na cultura, nas ciências, e que a final haveriam de retornar a mesmíssima Sefarad, novamente como outrora uma grande nação.

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Publicado por em março 10, 2011 em Judeus

 

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