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Escritores israelenses

12 mar

 

David Grossman, A.B. Yehoshua e Amós Oz formam a tríade de escritores israelenses que, como profetas bíblicos, têm funcionado como a consciência viva do país. Os três nasceram naquela que é talvez a mais dramática cidade do mundo, Jerusalém, fato que já os diferencia de escritores israelenses de gerações anteriores, muitos deles imigrantes. Intelectuais de renome internacional, multipremiados e multitraduzidos, mostram-se sempre atuantes na política de Israel. Na última guerra do Líbano, por exemplo, inicialmente apoiaram Israel, mas, em agosto de 2006, convocaram uma conferência de imprensa na qual apelaram ao governo para que aceitasse um cessar-fogo. Apesar de suas conhecidas e às vezes controversas posições políticas, nenhum deles faz ficção engajada, como o leitor poderá verificar em obras de dois desses autores recém-lançadas pela Companhia das Letras – A Mulher de Jerusalém (tradução de Nancy Rozenchan; 278 páginas; 47 reais), de Yehoshua, e Desvario (tradução de George Schlesinger; 328 páginas; 51 reais), de Grossman. A situação conflituosa de Israel aparece de forma somente indireta nesses livros, nos quais interessa mais o drama individual dos personagens.

Nascido em 1954, David Grossman é o mais moço do trio maior da literatura israelense. É um autor de muitas faces, que varia de gênero e temática de livro para livro. Durante a guerra do Líbano passou por um doloroso transe: seu filho Uri, de 20 anos, sargento numa unidade de tanques, foi morto em combate. À ocasião, Grossman escreveu um pungente texto, em que diz: “Aprendi com Uri que precisamos nos proteger do pensamento simplista, do cinismo, da corrupção de nossos corações e do tratamento cruel dos seres humanos, a maior maldição para aqueles que, como nós, vivem numa região conflagrada”.Desvario reúne duas novelas. A narrativa que dá título ao livro tem como cenário o interior de um carro. Do banco de trás, o cinqüentão Shaul Krauss, com a perna fraturada após um acidente, fala à cunhada sobre seu relacionamento com a esposa, que há dez anos tem (ou assim Shaul o imagina: o personagem é uma espécie de Dom Casmurro israelense) um caso com um cartunista desempregado que imigrou da Rússia. Sua narrativa mobiliza os sentimentos da cunhada, até o surpreendente final. Na segunda história, No Corpo Eu Entendo,temos também a relação acidentada de duas personagens, Níli, uma mulher em seu leito de morte, e Rotem, sua filha mais velha. A narrativa se desdobra ainda em um conto escrito por Rotem, sobre uma professora de ioga e seu aluno adolescente – uma relação sensual, mediada pelo corpo do garoto.

A.B. Yehoshua, nascido em 1936, é conhecido pelo temperamento explosivo e pelos pronunciamentos controversos. Para ele, judaísmo verdadeiro só existe em Israel, uma posição que enfureceu intelectuais judeus americanos num encontro realizado em Nova York, em 2006. Nem por isso ele deixa de ser um crítico às vezes destemperado da política israelense: em entrevista ao jornal italiano La Stampa,Yehoshua recentemente sugeriu que os Estados Unidos retirassem o embaixador de Israel até que o governo Olmert terminasse com os assentamentos na Cisjordânia. A Mulher de Jerusalém é dedicado à memória de Dafna, amiga morta num atentado terrorista realizado na capital israelense em 2002. A novela tem um início sombrio: o cadáver de uma mulher desconhecida jaz numa morgue em Jerusalém; como Dafna, foi vítima de um atentado terrorista. Descobre-se que ela é Yulia Ragayev, uma não-judia imigrada de uma pequena república da ex-União Soviética – e caberá ao encarregado de recursos humanos do panifício onde ela trabalhava transladar o corpo de volta à sua aldeia natal. A narrativa é ágil, movimentada, numa prosa mais coloquial e vibrante do que a linguagem reflexiva e metafórica de Grossman.

A Mulher de Jerusalém faz referências ao bloqueio de cidades palestinas – mas o conflito israelense-palestino não está no centro deste livro (e muito menos no de Grossman). Há, no entanto, uma mensagem sutil sobre Jerusalém e sua situação política. Se Yulia saiu de sua terra para radicar-se lá, é porque “acreditava que nessa cidade desgastada havia alguma coisa que lhe pertencia também”. As conotações dessa mensagem estão de acordo com o posicionamento do autor, para quem Jerusalém é a capital do estado de Israel mas, com toda a sua carga histórica e religiosa, é também um patrimônio da humanidade. Para os fins da ficção, Jerusalém é sobretudo o cenário para envolventes dramas humanos descritos por esses dois excelentes escritores.

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Publicado por em março 12, 2011 em Israel

 

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