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Diário de uma amizade

16 mar

Ele a chamava de “Dusia”. Ela o intitulava “Irmão”. Duas vidas, duas pessoas, dois destinos, mas uma união na qual prevaleceram a amizade pura, a cumplicidade, o carinho e o respeito mútuos. Em Diário de uma amizade – A família Pótawski e Karol Wojtya, lançamento da PAULUS, Wanda Pótawska torna pública a sua fraterna relação com um jovem sacerdote que anos depois se tornaria papa João Paulo II.

A obra foi lançada originalmente em 2009, na Polônia, com o título Beskidzkie rekolekcje. Em 2010, foi publicada na versão italiana, com o título Diário di un’amicizia – La famiglia Pótawski e Karol Wojtya. Finalmente, em 2011, o livro que apresenta as lembranças da médica polonesa, hoje com 89 anos, e as cartas trocadas com o Santo Padre ao longo de sua vida chega ao Brasil.

A autora conta que viveu horrores no campo de concentração de Ravensbrück, localizado na antiga Alemanha Oriental, sendo submetida pelos médicos nazistas a uma cirurgia com fins experimentais e a pesados sofrimentos físicos. Depois de muitas atrocidades e com a derrota da Alemanha ela pôde, enfim, regressar à Polônia. Porém, não conseguia encontrar para si um lugar tranquilo no mundo e, profundamente marcada por essa experiência, dedicou-se à medicina e à psiquiatria com o objetivo de decifrar o porquê de os homens serem capazes de tamanha selvageria.

Casada e com muitos afazeres por conta da profissão, Wanda relata que não alcançava a paz interior; a vida familiar e profissional não lhe bastava. Procurava alguém que a entendesse e ajudasse, até que, naquela busca incessante, deparou-se com a figura de um padre: Karol Wojtya. “Não aconteceu nada de extraordinário, mas o modo de tratar, o tom e aquilo que ele disse atingiram o alvo e corresponderam àquilo de que eu necessitava. Tive imediatamente a certeza de que voltaria àquele sacerdote, pois me compreendia. Lembro-me daquela incrível sensação de alívio pelo fato de que existia alguém que finalmente me compreendia, após tantos encontros com várias pessoas, muitas vezes cheias de boa vontade, mas que não compreendiam coisa alguma. Finalmente aquela alegria, talvez ainda não alegria, mas certamente alívio e paz.” Daí em diante, o então padre Wojtya tornou-se seu confessor e diretor espiritual.

Desde o início da amizade, a médica polonesa escrevia seus pensamentos ao padre, pois, juntos, tinham o costume de meditar pela manhã, após a missa. Karol Wojtya escolhia um texto sobre o qual refletiam ao longo do dia, e à tarde discutiam-no. Quando não era possível se reunirem, o sacerdote anotava os textos destinados para cada dia e ela descrevia aquilo que pensava sobre o assunto, para depois entregar-lhe.

Tais pensamentos, que retratam diversos períodos da vida da autora, estão agora disponibilizados neste livro. Entre esses momentos, a descoberta de um câncer gravíssimo, praticamente sem chance de cura, e o medo de deixar Andrzej, seu marido, e suas quatro filhas pequenas. Além da angústia vivida, Wanda também divide com o leitor a carta de Karol Wojtya na qual ele pede a Padre Pio (canonizado pelo papa João Paulo II) sua intercessão para o caso da doença e, em seguida, a carta de agradecimento pela cura milagrosa da amiga, antes mesmo da cirurgia.

As páginas também demonstram a alegria e a emoção da autora, em 16 de outubro de 1978, ao saber que o cardeal Wojtya se tornara papa, bem como sua preocupação em retribuir a Deus a graça de tê-lo como irmão. Já na segunda parte do livro, Wanda reúne lembranças sobre os montes Beskides. Trata-se de textos escritos a pedido do Santo Padre a respeito desse pedaço de terra da Polônia, onde ela e a família estiveram inúmeras vezes em retiros liderados por Wojtya. “Ele partiu desse local em 7 de agosto de 1978, para não mais voltar. Partiu com desgosto: sabia que não teria voltado; nós também o sabíamos. Mas eu voltei e ainda volto. Ele sabia que eu voltaria e me disse: ‘Se estiveres lá, nunca estarás sozinha, eu aí estarei sempre’. Tinha saudades daquele lugar, o recordava, e, sempre que eu ia a Roma, ele me perguntava praticamente de todas as árvores”, relembra a autora.

O presente livro, que ainda conta com as palavras de Józef Michalik, arcebispo de Przemyl (Polônia), não foi programado e nem escrito com o intuito de ser impresso. Wanda hesitava em publicar suas memórias, porém ela recebeu uma resposta de seu confessor que a incentivou: “As vicissitudes de um santo pertencem ao povo, não são propriedade privada; pertencem à Igreja”.

Lidos e aprovados pelo papa João Paulo II – que, durante um almoço na presença de Józef Michalik, disse a Wanda: “Deves escrever as tuas memórias” –, os textos da obra Diário de uma amizade – A família Pótawski e Karol Wojtya apontam que a direção espiritual e a proximidade pessoal do sacerdote permitiram à autora compreender o sentido da vida, pelo qual clamava o seu coração, além de mostrar como o amor respeitoso de Wanda e de sua família para com o Santo Padre pôde ajudá-lo também em sua caminhada na fé.

Wanda Pótawska nasceu no dia 2 de outubro de 1921 em Lublin. Durante a ocupação alemã, foi presa pela Gestapo e confinada no campo de concentração de Ravensbrück, onde foi submetida a cruéis experimentos por parte dos médicos nazistas. Após a derrota dos alemães, pôde regressar à Polônia, onde se casou com Andrzej Póltawski, do qual teve quatro filhas. Médica bem-sucedida, atou amizade com o jovem sacerdote Karol Wojtya. Em 1961, publicou o volume E tenho medo de meus sonhos, no qual narra a sua vida no campo de concentração de Ravensbrück. Diário de uma amizade é fruto da longa amizade com Karol Wojtya, que continuou também quando ele se tornou papa João Paulo II.

Serviço:
Título: Diário de uma amizade – A família Pótawski e Karol Wojtya
Autora: Wanda Pótawska

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Publicado por em março 16, 2011 em Holocausto

 

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