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Açougues aprovados pelo Alcorão

22 mar

O bairro do Pari reúne locais que servem carne halal, preparada segundo o código religioso islâmico. Mas não é preciso ser muçulmano para provar as iguarias
por Marco Antonio Miguel • Fotos Felipe Gombossy

Essa pode: até a esfiha de carne comida pelo menino Yasser tem de ser feita segundo a tradição muçulmana

Seria uma cena comum em São Paulo. A cliente chega ao açougue, pede um quilo de contrafilé e sai com o pacote para preparar o almoço em casa. A diferença é que a cliente, com a cabeça coberta por um véu, faz o pedido em árabe. É assim nos poucos açougues que vendem carne halal no Pari, na região do Brás, onde vivem muitos muçulmanos que seguem à risca as regras religiosas do Alcorão.

Halal significa lícito em árabe. A palavra é usada para descrever os alimentos permitidos pelos códigos sanitários e religiosos islâmicos. Carnes de frango, boi e cordeiro são as mais apreciadas. O oposto é haram (pecado), que se refere a alimentos proibidos como carnes de porco, cães, elefantes, ursos, gatos e macacos; além de aves de rapina, insetos e anfíbios. Por haram, os muçulmanos entendem também os alimentos transgênicos ou cultivados com pesticidas. Bebidas alcóolicas são proibidas. Outros produtos, desde que respeitem as regras de higiene, são liberados.

Para ser considerada halal, a carne recebe cuidados especiais desde o abate do animal. O processo só pode ser executado por homens muçulmanos que ultrapassaram a puberdade. A cabeça do animal fica na direção da cidade sagrada de Meca, e ele é morto por um único e preciso corte, na jugular, com uma faca bem afiada. “Não pode haver qualquer tipo de tortura”, diz o libanês Mohamad El Youssef, de 51 anos. Junto com a mulher, Siham, ele gerencia há oito anos o açougue e restaurante Zellaya. Todas as terças-feiras, ele levanta às 4h30 e segue para um frigorífico na cidade de Socorro, a 140 quilômetros da capital, onde realiza o abate segundo os preceitos islâmicos. O ritual proíbe ainda que um animal assista à morte de outro, uma precaução para impedir a liberação de toxinas.

Antes do abate, deve-se dizer: “Em nome de Deus, Deus é maior”. Segundo Youssef, as palavras afirmam que a carne que será comida é uma oferenda feita a Alá. O animal é então pendurado, para que todo o sangue escorra para fora de seu corpo.

Os preços da carne halal vendida no açougue do casal variam de R$ 18 a R$ 30 por quilo. O contrafilé custa R$ 22. A casa vende 700 quilos de carne toda semana. O açougueiro afirma, com sotaque carregado, que poderia vender mais. “Há muitos árabes que não seguem a religião. Se fosse para todos, faltaria açougue.” Há 8 milhões de descendentes de árabes no país, mas menos de 28 mil declararam-se muçulmanos no censo de 2000. A Federação Islâmica do Brasil calcula em mais de 1 milhão de fiéis no país. Destes, cerca de 40% vivem no estado de São Paulo.

Embora pouco consumida na capital, a carne produzida no Brasil para alimentar os países árabes rendeu US$ 3,2 bilhões no ano passado, 19% a mais que em 2009, segundo Michel Alby, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-brasileira. O frango responde por 70% do total exportado.

Há diferenças perceptíveis entre a carne halal e a do supermercado? “Eu não tenho ideia, porque só comi halal”, diz Siham, que prepara a comida no restaurante Zellaya. “É mais rápida para cozinhar, porque não solta tanta água, e o sabor é ótimo, não precisa de tempero”, diz a cozinheira Célia Alves. “E ela é um pouco adocicada.” Célia passou no açougue para preparar o almoço na casa da família árabe para quem trabalha. “Não precisa ser muçulmano para comprar os produtos halal”, diz Mohamad. Pratos árabes famosos entre os brasileiros também têm sua versão lícita. Há esfirras halal de carne e de zátar, um condimento árabe. Com o tamanho de um prato raso, a esfirra halal é usada como base de um sanduíche, com tomate, pepino, cebola, hortelã, rabanete ou limão. Para beber, chá quente em copos pequenos.

Além do ritual de preparo dos alimentos, os muçulmanos seguem uma etiqueta particular à mesa. Segundo a tradição, deve-se parar de comer um pouco antes de ficar satisfeito. “Um dos mandamentos do islã é controlar os instintos”, diz Paloma Awada, ex-funcionária de um frigorífico halal. Em muitas casas, é comum orar antes das refeições. Mas a religião não restringe o cardápio. “Se tem um prato que adoro é lasanha. E arroz e feijão também”, diz Paloma. Enquanto ela fala sobre os costumes culinários islâmicos, seu filho Yasser se delicia com uma esfirra.

Outra frequentadora do Zellaya, Fátima Garib estudou gastronomia e teve dificuldades nas aulas para seguir as regras do Alcorão. “Podia manusear a carne de porco, mas nada de encostar em bebidas, nem na garrafa”, diz. Seu trabalho de conclusão de curso foi uma homenagem à avó e à mãe: um livro com as receitas libanesas aprendidas na infância. E qual seria a delícia árabe que dona Siham gostaria de almoçar naquele dia? “Ah, uma macarronada!”

ROTINAS E RITUAIS Paloma Awada corta a esfirra feita no açougue e restaurante Zellaya. No centro, a iguaria coberta com zátar, também apreciada no café da manhã. Ao lado, o proprietário, Mohamad El Youssef, que traz a carne de um frigorífico de Socorro

O roteiro halal
Casas do Pari onde você encontra pratos feitos com a carne “lícita”

Casa Líbano >> Prove o kabsce, risoto de carneiro com amêndoas, e o homus especial, pasta de grão-de-bico com tahine, coberto com pedaços de carne.
R. Barão de Ladário, 831, tel. 3313-0289

Abu Ali >> O açougue vende carne bovina e linguiça árabe, feita de carne de cordeiro. No restaurante, são servidos churrasco, cordeiro e salgados.
R. Barão de Ladário, 927 , tel. 3227-3535

Al-Soltan >> O quibe cru é feito na hora. Serve também sobrecoxa desossada com tempero libanês e costela de carneiro desossada na chapa.
R. Dr. Ornelas, 51, tel. 2081-0813

Zellaya >> Açougue de carne bovina e restaurante com quibe assado e cru, churrasco, homus e frango assado.
R. Rodrigues dos Santos, 687, tel. 3326-8451

Revista Época São Paulo

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4 Comentários

Publicado por em março 22, 2011 em Comida

 

4 Respostas para “Açougues aprovados pelo Alcorão

  1. Marinete Lima da Silva

    outubro 12, 2012 at 3:42 pm

    Eu sou Adventista do Setimo dia, e gostara de saber se vcs vendem linguiça feita só de carne bovina, morro em Tatui sp como vcs trabalha, é que tenho interese de vender aqui pois tem muitas gentes que não come carne de porco , então estou pesquizãndo aqui não tem quem vende só linguiça bobina obrigada

     
  2. Leon

    novembro 11, 2012 at 7:06 pm

    Muito interessante, tenho 15 anos, não sou vegetariano porém espero que quando adulto eu more perto de algum desses açougues, não sou da mesma religião mas aprecio muito seus costumes, de que a tortura do animal não seja irrelevante, ao contrário de outros abatedouros do mundo inteiro, comandados por pessoas que não querem nada além do dinheiro e não se preocupam com o sofrimento alheio, seja animal, ou humano..

     
  3. almeides

    fevereiro 24, 2014 at 4:29 pm

    Boa tarde! Gostaria de saber se vocês vendem carnes só para quem é muçulmano ou você vendem para os Brasileiros também ? Desde já agradeço pela atenção, aguardo resp…

     
    • tonihuff

      fevereiro 24, 2014 at 6:39 pm

      A carne é vendida para quem quer comprar independente de religião. É só ter dinheiro. Rsrsrsr

       

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