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A farsa do relatório Goldstone

05 abr

Caras e caros,

A história é um pouco longa, mas faço questão de registrá-la aqui em detalhes. Se tiverem um pouco de paciência, garanto que, ao fim do post, todos estaremos mais aptos a lidar com a realidade. Nos dias em que esta página parece quase isolada na crítica aos desatinos dos EUA na Líbia — a cobertura da VEJA tem sido impecável —, vale a pena a gente refletir um pouquinho sobre o que é o “fato” e o que é a “notícia”. Este blog conta com algumas vitórias intelectuais ao longo do tempo, decorrentes apenas do fato de dizer “não” às falsas evidências. Mas acho que nenhuma é tão acachapante quanto esta. Vamos lá?
*
No dia 3 de janeiro de 2009, o governo de Israel deu início à ofensiva contra a Faixa de Gaza, governada pelo Hamas. Era uma resposta aos milhares de foguetes que o grupo terrorista disparava— e dispara ainda — contra o país. Este blog, como sempre, lamentava a guerra, mas reconhecia o direito que o agredido — Israel — tinha e tem de se defender. A imprensa mundial, majoritariamente antiisraelense, gritava: “Crimes de guerra! Ação desproporcional!” Por “desproporcional”, queriam dizer que os foguetes do Hamas matavam poucos israelenses… O raciocínio é uma nojeira moral porque parte do princípio de que o Hamas deveria ser mais eficiente como máquina mortífera. Nesse caso, então, a resposta seria… proporcional!!! Em suma, faltavam cadáveres israelenses no conflito para que o confronto parecesse justo. Mais: como o Hamas disparava (e dispara) foguetes a esmo, sem querer saber onde cairiam — felizmente, costuma ser em áreas pouco habitadas —, então se supunha que a resposta israelense devesse ser a mesma, certo? Disparar também a esmo, “proporcionalmente”!!! Imaginem o que isso não causaria na abarrotada Gaza…

Apanhei uma barbaridade! Um colunista de esquerda de um grande jornal, antiisraelense como quase todos, chegou a me acusar, imaginem só!, de considerar que, “diante do Hamas, não há saída a não ser bombas sobre criancinhas” e de afirmar que, “diante do terrorismo, podem ser ingênuos os que criticam a tortura”. Obviamente, eu não tinha escrito nada disso — isso faz parte do enorme livro das coisas que não escrevi. Mas sabem como é… Os “inimigos” precisam ser caracterizados como satãs… Quem sabe, assim, os seus próprios capetas passem por anjinhos…

A coisa seguiu adiante. Os relatos da imprensa ocidental, quase todos, tinham origem em fontes palestinas, sobretudo nas chamadas “organizações humanitárias”, supostos médicos descompromissados, que estariam em Gaza com o único propósito de ajudar a população civil. Fazia-se de conta que o Hamas não se apresenta à população, antes de tudo, como uma… organização humanitária! Bem, as coisas ficaram feias pra valer quando veio o chamado “Relatório Goldstone”, em outubro de 2009. O texto, com efeito, acusava tanto Israel como o Hamas de cometer “crimes de guerra”, mas a censura ao grupo terrorista era não mais do que lateral. Quem apanhava mesmo era o país agredido. E a turma babava seu ódio: “Vamos ver o que você vai escrever agora, Reinaldo Azevedo!!!” E escrevi, sim, no dia 18 de outubro de 2009: o que segue. Escrevi porque li o relatório.

O Brasil votou no dia 16 a favor do chamado Relatório Goldstone , que acusa Israel e o Hamas de crimes de guerra em Gaza. O texto foi aprovado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, composto de 47 membros, por 25 votos a 6 e 11 abstenções. Cinco países se negaram até a votar. O nome do relatório é uma referência ao juiz sul-africano Richard Goldstone. Aparentemente, o relatório condena os dois lados. De fato, as acusações contra Israel são muito mais severas e ocupam quase todas as 575 páginas do documento. Entre outras delicadezas, omite as evidências de que o Hamas usou a população palestina como escudo. O conjunto revela uma farsa estupenda. E o papel do Brasil é mais detestável do que parece à primeira vista. Vamos ver.

Está tudo errado com esse relatório. Aliás, está tudo errado com o próprio Conselho de Direitos Humanos, cujo vice-presidente é o egípcio Hisham Badr. O Egito é uma das ditaduras mais truculentas no planeta. No conselho, é apenas uma das tiranias. Também têm assento por lá as seguintes democracias exemplares: Angola, Bangladesh, China, Cuba, Gabão… Esses três últimos países, além do próprio Egito, fizeram parte do grupo que propôs a investigação. Trata-se, obviamente, de uma piada.

A mentira já começa na escolha do “juiz” Richard Goldstone, que é judeu. Quando se escolhe um judeu para averiguar se Israel é culpado ou inocente, o que se espera é que, em nome da isenção, ele declare a culpa do país, entenderam? Nem farei considerações aqui sobre a cultura judaica da autocrítica – “mal” de que não padecem seus adversários. Aponto a má-fé óbvia da escolha: se ele concluísse pela inocência de Israel, diriam: “Também, foram entregar a tarefa logo para um judeu…” Como ele concluiu que o país é culpado, a imprensa mundial destaca: “E olhem que Goldstone é judeu…” Judeu só é isento se condena Israel.

Para começo de conversa, ele não foi designado para saber se Israel cometeu crimes de guerra e sim para colher evidências do que já era dado como certo. Ele não precisava investigar nada. Bastava buscar algumas narrativas que endossassem o que o Conselho de Direitos Humanos, coalhado de facínoras, já havia decidido.

Provo o que digo. A decisão de criar a comissão é do dia 3 de abril deste ano. Aqui está a resolução de 13 de janeiro, que já condenava Israel. Por que fazer investigação se as conclusões já estavam prontas? O item 473, nas páginas 144 e 145, é patético. Traduzo: “A missão perguntou a diversas testemunhas em Gaza por que elas ficaram em suas casas apesar dos bombardeios e da invasão israelense. Elas declararam que decidiram ficar porque já conheciam incursões anteriores e, com base naquela experiência, não pensaram que correriam algum risco se permanecessem dentro de casa e porque não tinham lugar seguro para ir. Além disso, algumas testemunhas declararam que decidiram ficar porque queriam cuidar de sua casa e de sua propriedade. A Missão não encontrou evidências de que os civis foram forçados por grupos palestinos armados a permanecer nas suas casas”.

Como se vê, não é que o relatório omita a existência de escudos humanos. Ele os nega. O texto é um primor. Até o suposto auto-engano das vítimas (”com base em experiências anteriores”…) é responsabilidade de Israel. Pergunto: aquelas pessoas se imaginavam seguras, não tinham aonde ir ou queriam cuidar de suas propriedades? É o fim da picada! O Relatório Goldstone é um calhamaço de acusações contra Israel. A crítica ao Hamas é só um tributo da virtude ao vício. Na prática, o único ato errado que Goldstone atribui ao grupo é ficar jogando foguetes contra civis israelenses. Mas, como eles não costumam matar quase ninguém, isso não parece ser tão grave. Assim, o que parece aliviar a culpa daqueles humanistas é o fato de que não há cadáveres judeus o bastante. Se os israelenses querem ver o Hamas ser realmente criticado na ONU, terão de permitir que eles sejam mais eficientes, deixando-se matar. É um troço nojento. Se vocês quiserem saber mais sobre o Relatório Goldstone, cliquem aqui. Há links com opiniões também favoráveis ao texto.

Voltei
Pois bem… Na sexta-feira, o juiz Richard Goldstone, o mesmo que redigiu o relatório que levou à condenação de Israel, escreveu um artigo no Washington Post em que, na prática, se desculpa por seu relatório. Num recuo como raramente, ou nunca!, vi nesses casos, afirma que, se soubesse em 2009 o que sabe hoje, seu texto teria sido outro. Goldstone está dizendo: “Vejam só! Tio Rei levanta da cadeira apenas para comprar cigarros (é preciso parar com esse vício…), mas ele estava certo, e eu, que fui a Gaza, que vi tudo de perto, que colhi depoimentos, estava errado”. É claro que é uma brincadeira, né? — queridos, há petralhas lendo o texto, e eles só entendem ironias com manual de instrução…

Leiam o texto vocês mesmos. Aqui vai uma síntese do que afirma:

1 – Sabe-se muito mais agora do que se sabia quando ele fez o relatório a pedido da ONU. Hoje, o texto seria outro.

2 – O relatório final, da juíza Mary McGowan Davis, que se seguiu ao seu, reconhece que Israel tem feito esforços e investido recursos para apurar as acusações de má conduta. Já o Hamas, até agora, não fez investigação nenhuma.

3 – O relatório aponta evidências de possíveis crimes de guerra tanto de Israel quanto do Hamas. Que os do Hamas tenham sido propositais, Isso é evidente. Afinal, dispararam os foguetes.

4 – As acusações de que Israel atacou civis intencionalmente foram feitas com base em relatos de campo, a partir da constatação de mortos e feridos; parecia não haver outra conclusão possível. Apurações posteriores reforçam alguns incidentes apontados naquela apuração de campo, MAS INDICAM QUE OS CIVIS NÃO ERAM ALVOS INTENCIONAIS DAS FORÇAS ISRAELENSES. Ou seja: o núcleo do relatório é falso!

5 – O caso mais grave do relatório, a morte de 29 membros da família al-Simouni, tudo indica, foi mesmo decorrente de um erro de interpretação de um soldado, mas o caso está sendo investigado de maneira adequada, ainda que o processo seja lento.

6 – Goldstone saúda a disposição de Israel de fazer a investigação, endossa preocupação do relatório McGowan, segundo o qual poucos casos foram investigados até agora, diz que as apurações de Israel não negam a morte de civis, mas RECONHECE QUE ELES NÃO TINHAM EVIDÊNCIAS DE QUE OS CIVIS FORAM ALVOS DELIBERADOS DAS AÇÕES ISRAELENSES, conforme consta do relatório.

7 – Goldstone chega a dizer que a falta de colaboração de Israel com a investigação acabou impedindo a tal comissão de distinguir, entre os mortos, quantos eram realmente civis e quantos eram combatentes.

8 – Goldstone diz que o objetivo nunca foi condenar Israel por princípio, reconhece que a resolução da ONU que pediu a investigação tinha um viés antiisraelense (O QUE APONTEI NO BLOG) e que ele sempre achou que Israel tem o direito de se defender dos ataques externos (Hamas) e internos (terrorismo dentro do país). Tentando salvar um pouco a hora do seu relatório, exalta o fato de que ele foi o primeiro a reconhecer também as culpas do Hamas.

9 – Goldstone diz que o seu relatório nunca foi um processo judicial, mas uma conclamação para que cada parte procedesse à devida investigação. O relatório McGowan admite que Israel está fazendo a sua parte. O Hamas não está fazendo nada!

10 – Atenção, leitor, para o trecho mais sensacional do relatório:
Goldstone diz que alguns acusam a ingenuidade do seu relatório ao supor que o Hamas, que quer destruir Israel, faria uma investigação. O juiz confessa a esperança de que o Hamas pudesse fazê-lo, especialmente se Israel cumprisse a sua parte. Mais: ele diz que esperava, quando menos, que o grupo reduzisse os ataques a Israel. “Infelizmente, não foi o caso”, constata. E DIZ, COMO SE TIVESSE LIDO ESTE BLOG, QUE O FATO DE O HAMAS MATAR POUCOS ISRAELENSES COM SEUS FOGUETES NÃO MUDA A NATUREZA DO SEU CRIME, O QUE MERECE UMA CONDENAÇÃO MAIS FORTE DA ONU.

11 – No fim das contas, pedir ao Hamas que investigue os próprios crimes é perda de tempo. A ONU deveria exigir que a morte recente, a sangue frio, de um casal israelense e seus três filhos, fosse investigada.

12 – Goldstone tenta salvar alguma coisa de seu relatório. Diz que ele contribui para que se tomem cuidados adicionais nas guerras em áreas urbanas, limitando o uso de fósforo branco; que elevou a Autoridade Nacional Palestina a investigar os crimes praticados na Cisjordânia pelas forças do Fatah contra o Hamas, mas que o Hamas, em Gaza, não fez absolutamente nada para apurar as acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

13 – O Hamas não está menos obrigado a seguir determinados procedimentos na guerra do que Israel. É preciso que todas as forças cooperem para proteger os civis.

Concluo
Israel exigiu ontem a anulação do Relatório Goldstone. E faz muito bem! “O relatório tem de ir para a lata de lixo da história”, afirmou Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Tem razão. “Nos nunca atacamos civis de forma deliberada (…), enquanto o Hamas nunca verificou nada [quem iria ser atingido]. Está certo de novo! Aquele que acusou Israel agora reconhece isso.

Não basta um artigo no Washington Post para repor a verdade.

Ah, sim: o Brasil de Lula e Celso Amorim, claro!, votou contra Israel. Nesse caso, vamos ver, talvez votasse ainda hoje…

Por Reinaldo Azevedo

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Publicado por em abril 5, 2011 em Israel

 

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