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A natureza da “solidariedade” aos palestinos

16 jun

No post anterior, publiquei um texto em que um coronel sírio fala sobre a brutal repressão aos dissidentes no país. O primeiro comentário, de um leitor que se apresenta como “De passagem”, foi revelador. “Não acredito em nada do que esses golpistas vendidos dizem”, escreveu ele, em letras maiúsculas, para afirmar sua indignação. Para “De passagem”, a versão do coronel só pode ser mais uma invenção no enorme complô ocidental contra os pobres árabes. Não houve, da parte do comentarista, nenhuma mísera palavra de solidariedade ao povo sírio. Como explicar tamanha insensibilidade de gente que se posiciona à “esquerda” e que, portanto, deveria ter como valor primordial a solidariedade aos oprimidos – qualquer oprimido?

Essa “esquerda” tornou-se cinicamente seletiva a partir de Stálin e nunca mais se recuperou. Como se sabe, o antissemitismo travestido de “antissionismo” é invenção stalinista, depois que ficou claro que o Estado de Israel não se alinharia a Moscou, mas aos EUA, apesar dos sionistas socialistas. Stálin, que sempre foi antipático aos judeus e queria aproveitar para fazer mais um de seus expurgos, deflagrou campanha contra o “cosmopolitismo” judaico, inimigo do Estado, o que resultou em prisões em massa e falsos julgamentos. Graças à subserviência de intelectuais esquerdistas de vários países europeus e latino-americanos a tudo o que vinha da URSS, resultou também na disseminação da ideia de que o Estado de Israel era parte de um plano global de dominação capitalista no Oriente Médio. A propaganda soviética afirmava ainda que o sionismo e o nazismo se equivaliam, que os sionistas detinham o poder econômico e midiático internacional e, enfim, que conspiravam secretamente para destruir a liberdade dos povos. Como se vê, todos os elementos do antissemitismo clássico dos séculos 19 e 20 estão presentes no “antissionismo” soviético, alegremente adotado como discurso pela militância esquerdista do século 21.

A “solidariedade” desse socialismo distorcido, desde então, só se manifesta se for para apoiar supostas vítimas dos inimigos de sua “causa”, resumida no tal “outro mundo possível”, slogan totalitário que divide o mundo entre bons e maus. Já as vítimas dos tiranos árabes, vistos como “heróis” da “luta anticolonialista”, essas não contam.

Nesse contexto, o “outro mundo possível” só se interessa pelo cruel Ocidente, cuja representação máxima é os EUA. O Ocidente é visto por essa militância como o motor da desumanização, da busca do prazer e do consumo e da destruição do “outro”, vinculando suas relações exclusivamente ao dinheiro. Não existe a possibilidade de virtude no Ocidente, que produz apenas seres individualistas, incapazes de engajar-se num projeto coletivo. Os virtuosos são somente os eleitos do “outro mundo possível”, sobretudo sua vanguarda revolucionária.

O desdobramento em Israel é óbvio: trata-se da ideia de que a modernidade representada pelo Estado judeu é uma intromissão violenta nas tradições árabes e islâmicas, uma ameaça de ruptura inaceitável, o símbolo da opressão contra os indefesos palestinos, um ser estranho no meio do deserto – exatamente como os judeus eram considerados seres estranhos à sociedade alemã mais “pura” e “tradicional”, porque representavam o perigoso espírito cosmopolita e contestador. Eram as bactérias a infectar o corpo germânico, conforme elaboraram os panfletários antissemitas e, depois, o próprio Estado alemão.

Não é mera coincidência que o sentimento antiocidental que alimenta a rua árabe islâmica e nutre ódio mortal pelos judeus tenha se inspirado na Alemanha, e a partir da mesmíssima matriz do nazismo, que é o Romantismo do século 19 – uma espécie de “Contra-Iluminismo”, como definiu Isaiah Berlin. Sati Husri, ideólogo do nacionalismo árabe, era leitor dos filósofos românticos alemães Herder e Fichte e visualizava um mundo árabe unificado sob o signo da völkisch, a ideia de uma sociedade “orgânica” radical, sem espaço para o indivíduo e o livre arbítrio, como preconizava o fascismo. Além disso, com a retomada da noção de solidariedade de “sangue árabe”, completou-se o circuito de combate nacionalista sem trégua ao Ocidente e seus rótulos fáceis: colonialismo, imperialismo e sionismo.

A defesa do “sangue e da terra” (Blut und Boden) ante as ameaças externas, alimentada pelo Romantismo alemão e adotada pelo nacionalismo árabe, criou uma ideologia deletéria, cujos seguidores aprenderam rapidamente o valor do “tudo ou nada” na construção de sua mitologia, traduzida pela valorização da morte heroica – dos kamikazes e dos homens-bomba – e da eliminação física do outro. Na ideologia Blut und Boden, a convivência com o diferente é obviamente uma impossibilidade, razão pela qual a existência de um Estado judeu – o “diferente” por excelência na mentalidade antissemita – foi imediatamente rechaçada pelos nacionalistas árabes. (Ironicamente, os judeus israelenses, que aceitam os árabes em seu Estado, é que são acusados de racismo e de “apartheid”, vejam só.)

Assim, os militantes anti-Ocidente escolhem defender “causas” que, em sua opinião, simbolizam essa impossibilidade de conciliação, tão útil na construção de uma atmosfera de “tudo ou nada”. A causa palestina é perfeita para isso: em meio a uma história complexa, slogans simplistas sobre a miséria palestina em contraponto à opulência israelense, patrocinada pela plutocracia judaica que “manda” na Casa Branca, são a propaganda perfeita para disseminar não a verdade, que é irrelevante, mas a mensagem de ódio ao Ocidente. Pior: em sua tarefa de demonizar Israel, os militantes anti-Ocidente não se importam com mais nada – nem com os dissidentes sírios, nem com a minoria não-islâmica sudanesa, nem com os muçulmanos da China. Nem mesmo com os palestinos, que são, como vimos, apenas um pretexto.

O que importa é combater Israel sem trégua, como o Mal Absoluto. Israel tem mil utilidades e adjetivos. É sempre invocado quando se quer fazer equivalência moral com algum líder árabe socialista corrupto amigo do Brasil lulista ou da Venezuela chavista. Israel é, ainda, “ladrão de terras”, um “câncer”, um “protetorado dos EUA” encravado no mundo árabe “a serviço do grande capital”. É – suprema comparação – a reencarnação da Alemanha nazista, como esbravejou Stálin. Não há como conceder existência a um monstro desses.

Blog Marcos Guterman

 
1 comentário

Publicado por em junho 16, 2011 em Israel

 

Uma resposta para “A natureza da “solidariedade” aos palestinos

  1. JUSSARA SOUZA

    junho 16, 2011 at 5:31 pm

    Façamos, pois, um breve paralelo: EUA / Alemanha Nazista; foco: israelenses / muçulmanos!!

     

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