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A “Pátria” mais antiga dos judeus no Brasil

05 jul

Belém - Pará

Muito além de negros, índios e europeus originários da Península Ibérica, o milenar povo judeu encontrou na região Norte do Brasil um bom lugar para se abrigar.

O economista e também judeu Samuel Benchimol afirma em seu livro “Eretz Amazônia: os judeus naAmazônia” que existem quase 300 mil descendentes de judeus espalhados por toda a Amazônia Legal. De acordo com a obra, a região Norte abriga a maior parte dos descendentes de judeus do Brasil. Hoje, de fato, eles fazem parte dos povos amazônicos, mesmo sem perder a ideologia originária de suas tradições. A comunidade ainda continua como uma grande família”, destacou o rabino da Comunidade Israelita do Pará, Moysés Elmescany.

Se a região Norte abriga a maior descendência de judeus do país, Belém do Pará é praticamente um museu a céu aberto da história desse povo em solos amazônicos. Está na capital paraense a mais antiga sinagoga em funcionamento do Brasil, além do primeiro cemitério israelita construído no país, em 1848. Este ano, a comunidade judaica do Pará vai completar 200 anos. “Ininterruptamente, é a comunidade de judeus mais antiga do Brasil. Falo em nível de organização comunitária. Em Recife tinha uma mais antiga, mas a comunidade deixou a cidade depois de um tempo”, destacou a presidente do Centro Israelita do Pará, Iana Pinto.

A SINAGOGA DE BELÉM - A capital do Pará abriga o templo mais antigo em funcionamento do país. Inaugurado em 1824, só foi precedido pela sinagoga fundada pelos judeus holandeses no Recife no século XVII, cujas ruínas foram descobertas nos anos 90

A imigração começou no período da Inquisição, bem antes dos episódios de horror do Holocausto. Para fugir dos tribunais católicos que puniam aqueles que não acreditavam na igreja, famílias judaicas vieram para terras amazônicas em busca de proteção. Após o encerramento do tribunal inquisitório, os judeus puderam se organizar em forma de comunidade.

“Alguns chegaram em 1886, quando nem havia república no Brasil. A maioria dos imigrantes não sentia muito a diferença, pois o Pará prosperava com a época da borracha e parecia um pedaço do continente europeu. A maioria veio do Marrocos e encontrou, além da receptividade, diversidade de peixes e frutas para a alimentação. Os judeus também conseguiram se estabelecer no mercado de trabalho, principalmente no comércio”, afirmou Iana Pinto.

Não mediram esforços para ajudar a desenvolver social, cultural e economicamente a Amazônia, adotando o Pará como sua nova pátria. “São várias as vantagens que nós tínhamos. Sabíamos ler, escrever, fazer contas, outras línguas…”, explicou o presidente da Sinagoga Essel Abraham (localizada na travessa Campos Sales), Moyses Leão Melul.

Comunidade judaica tem 450 famílias no Pará

Atualmente, a comunidade judaica no Pará conta com uma média de 450 famílias. Além de Belém, os judeus também fixaram moradia em municípios como Cametá, Alenquer, Óbidos, Santarém, Macapá e Laranjal do Jari, entre outros. “Não sei se atualmente fazemos parte do topo, mas estamos entre os cinco mais populosos do Brasil com certeza”, disse Moysés Elmescany, rabino da Comunidade Israelita do Pará. “Soubemos desenvolver questões naturais do período da borracha”, completou Moysés Leão Meluf (foto acima), presidente da Sinagoga Essel Abraham.

Porém, apesar de alguns judeus ainda terem espaço no comércio, a maioria atualmente atua em outro ramo. “Perdemos muito esse caráter empresarial, pois os pais mandavam os filhos para fora com o intuito de virarem doutores. Hoje nos destacamos como profissionais liberais”, ressaltou Iana Pinto. Houve, ainda, incorporações dos costumes locais em algumas famílias judaicas. “A culinária foi o que mais se adaptou (ver síntese ao lado). A gente come vatapá com peixe, por exemplo. Também aumentou essa questão da receptividade, que o Pará sempre teve muito e nós acabamos pegando”, garantiu.

Judeus que contribuíram para o avanço do Pará:

– Jayme Aben-Athar (cientista e antigo diretor da Santa Casa do Pará)
– Judah Levy (arquiteto responsável por construir o primeiro prédio vertical e as duas sinagogas de Belém)
– Isaac Soares (colunista e ex-prefeito de Belém)
– Clara Pinto (idealizadora da primeira escola de dança do Pará)
– Ana Unger (dona de uma das escolas de dança mais modernas da região Norte)

Adaptações da culinária judaica com alimentos amazônicos

A necessidade de conservação dos pratos como tradição fez com que o judeu que chegasse ao Pará fosse adaptando os ingredientes da terra à culinária marroquina.

1 – O tão sonhado couscous, com sua farinha de sêmola, foi substituído por uma mistura de farinha d’agua dos índios, com ovos e óleo.
2- O Grão de bico foi substituído pela mistura de trigo, água e sal. Depois de tostada, passou a se chamar café de massa, e complementava pratos como a Dafina do Shabat.
3- Da farinha para biju, saiu o pão ázimo para a celebração do Pessach.
4- Com cachaça e uva passa torrada em barro fazia-se o vinho para as páscoas.
5- A castanha-do-pará substituiu com louvor as receitas com nozes e amêndoas, dando um sabor mais rústico e marcante às sobremesas matriarcas.

Fonte: Diário do Pará

 
1 comentário

Publicado por em julho 5, 2011 em Judeus

 

Uma resposta para “A “Pátria” mais antiga dos judeus no Brasil

  1. Jussara Souza

    julho 16, 2011 at 12:11 am

    Texto muito interessante!! Gostei bastante!!
    Gostaria de solicitar o envio do tópico já abordado e trabalhado, no tocante aos nomes familiares com origem judaica ( Rodrigues, Coelho, etc.).
    Agradeço a atenção dispensada!!

     

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