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Judeus na Bahia?

28 maio

Descoberta arqueológica no Pelourinho pode ajudar a mapear a origem do judaísmo no Brasil. Pesquisas feitas a partir dos indícios de uma mikvé do século XVII indicam que ritos judaicos eram feitos clandestinamente em Salvador, bem em frente à Igreja de São Francisco.

Que relação pode existir entre o início do judaísmo no Brasil, a Inquisição e a história da Bahia Colonial? Isto é o que está tentando desvendar um grupo interdisciplinar que, intrigado por uma descoberta arqueológica inédita, lançou-se numa pesquisa que pode dar um novo rumo à origem do judaísmo em terras baianas. Possivelmente datada do século XVII e revelada na reforma de um hotel localizado no Centro Histórico de Salvador, a construção similar a uma mikvé – local para imersão ritual em água corrente, utilizada pelo judaísmo – abre novos horizontes para o cotidiano religioso judaico no Brasil, principalmente quando se verifica que o equipamento em questão não possui qualquer registro conhecido e encontra-se a poucos metros de uma das igrejas católicas mais importantes da Bahia.

A descoberta pode ajudar a determinar, por exemplo, o vestígio material mais antigo ligado ao judaísmo na Bahia. Hoje, a sinagoga Kahal Zur Israel, localizada em Recife e datada do século XVII, é considerada o vestígio material judaico mais antigo do país. A possível mikvé de Salvador possuiria uma natureza diferente, já que teria sido erguida em meio às adversidades e perseguições impostas pela Inquisição portuguesa – diferentemente da sinagoga de Recife, que foi criada num período de tolerância religiosa garantida pela presença holandesa na capitania de Pernambuco. O fato do equipamento baiano nunca ter sido mencionado na documentação inquisitorial conhecida (única fonte que pode fornecer informações sobre a presença dos descendentes dos judeus conversos na América portuguesa), sugere um caráter sigiloso e restrito, reforçando uma característica de “sinagoga de resistência”.

Para Berta G. Wainstein, idealizadora do projeto que pesquisa a origem da construção encontrada no Pelourinho, a comprovação da existência de uma mikvé na Bahia colonial lançaria novas cores à presença judaica na formação da cultura nordestina, já que demonstraria um “ato de heroísmo” numa época muito difícil para práticas religiosas não católicas. “Além disso, a comprovação da mikvé será um tributo a Salvador”, afirma Wainstein, que pretende avançar muito mais nessa investigação.

TOMBADO

O solar em que se encontra a mikvé está situado no largo de São Francisco, antiga Praça Anchieta, nº 16 e 18, e abriga hoje o Hotel Villa Bahia. O imóvel é tombado individualmente pelo governo federal através do SPHAN (atual IPHAN) e integra o Centro Histórico de Salvador, inscrito como Patrimônio mundial, cultural e natural pela Unesco. Vizinha à Ordem e igreja de São Francisco, cujas edificações originais datam de 1587, está numa região que já funcionou como área urbana ocupada pela elite colonial açucareira, profissionais liberais, funcionários da Coroa e ricos mercadores, indistintamente cristãos velhos ou cristãos novos. Conhecer os primeiros donos do solar é um dos objetivos da pesquisa que pode ajudar a comprovar toda a história.

Até agora, o trabalho de busca de dados vem sendo feito por iniciativa de um grupo coordenado por Berta G. Wainstein e que conta com o apoio de Dr. Maurício Szporer, Presidente da Sociedade Israelita da Bahia, Bruno P. Guinard, Diretor do Hotel Villa Bahia, o Rabino Ariel Oliszewski e a historiadora Profa. Dra. Suzana Severs. Além de mergulhar nos registros históricos disponíveis, a equipe convidou o rabino argentino Abraham Skorka, máxima autoridade rabínica do Movimento Conservador na América Latina, para avaliar se aquele equipamento, até então classificado como “banho português”, obedecia plenamente aos pré-requisitos indispensáveis a uma mikvé.

COMPROVAÇÃO

As suas conclusões positivas reforçaram o prosseguimento da pesquisa histórica voltada a identificar o proprietário construtor do casarão e sua origem étnica, pois somente um cristão-novo, um marrano, com amplo conhecimento e erudição nas leis religiosas, poderia edificar uma mikvé durante um dos piores momentos persecutórios para a histórica judaica, que foi a Inquisição moderna ibérica. Outro incentivo à pesquisa veio em agosto do ano passado, quando a Profa. Anita Novinsky, doutora em História pela Universidade de São Paulo e maior especialista brasileira em cristãos-novos (autora do livro Cristãos Novos da Bahia) esteve em Salvador para participar do Simpósio Internacional de Estudos Inquisitoriais.

Ao visitar o Hotel Villa Bahia, atestou junto aos pesquisadores que o equipamento tinha todos os indícios de ser uma mikvé. Esses dois depoimentos, aliados ao fato dos azulejos da construção serem comprovadamente seiscentistas, levaram o grupo a prosseguir o seu trabalho. Como até agora tudo foi desenvolvido com recursos próprios, pretende-se conseguir apoio para a continuidade da pesquisa, que incluiria a contratação de arqueólogos e historiadores, além da publicação de um material editorial ou produção de vídeos sobre a construção. Outro passo será decidir o que fazer com a mikvé, que neste momento encontra-se reservado e conservado, mas distante da visitação pública.

IDENTIFICAÇÃO DA POSSÍVEL MIKVÉ ACONTECEU POR ACASO

Ao se mudar para o Brasil, em 1985, o francês Bruno Guinard não imaginava poder contribuir para o esclarecimento de dados sobre a história do país. Nem mesmo em 2006, quando coordenou a reforma do casarão para abrigar o Hotel Villa Bahia, no Pelourinho, pensou que estaria diante de um equipamento importante, tido como uma mikvé. Intrigado com a singularidade do achado, obteve de um especialista em arquitetura colonial a informação de que aquilo seria “provavelmente” uma banheira utilizada para “banhos portugueses”, uma referência que não foi comprovada em nenhum registro, assim que iniciou sua pesquisa individual. Na dúvida sobre a importância da construção, promoveu uma cuidadosa conservação do espaço, até achar dados que contextualizasse aquela “banheira” aos visitantes do hotel.

Foi somente em 2008, ao receber um grupo de hóspedes judeus em Salvador, que o gerente do Villa Bahia ouviria falar em mikvé. Um visitante, judeu ortodoxo, ficou curioso pela existência do equipamento e foi questioná-lo sobre a utilização do mesmo, já que possuía muitos dos pré-requisitos necessários para ser qualificado como uma mikvé: dimensão para quantidade necessária de água, inexistência de encanamento e até uma “caixa d´água” construída em cima, provavelmente para armazenar água da chuva. Na mesma época, Berta G. Wainstein fazia uma visita ao Hotel quando viu pela primeira vez o que pensou se tratar de uma mikvé.

Com o interesse compartilhado pelos dois, Wainstein formou a equipe que integra hoje o grupo de pesquisa. Iniciou-se, então, um mergulho em documentos do Ipac, da Fundação Gregório de Matos e de arquivos públicos, além de entrevistas com conhecedores da história sobre a área em questão. Esse trabalho inicial conseguiu chegar, por exemplo, ao nome de um dos supostos proprietários do solar onde funciona o Villa Bahia, Francisco de Oliveira Porto, através de um litígio sobre a ampliação da igreja de São Francisco no ano de 1700. Mas o desejo do grupo é avançar na investigação, procurando registros ainda mais antigos.

Caixa d´água

RESISTÊNCIA

“Recentemente, nos Estados Unidos, descobriram uma mikvé do século XIX e imediatamente houve interesse de várias universidades para pesquisar sobre o assunto”, comenta Guinard, que divide hoje seu tempo entre a gerência do hotel e o papel de pesquisador. Para a historiadora Suzana Severs, a comprovação da mikvé na Bahia pode dar um caráter de resistência à história do judaísmo no país, já que, na época, qualquer sinal exterior de religiosidade que não a católica oficial colocaria em risco seu observante e todos seus entes mais próximos. Ela lembra que entre os cristãos-novos, existem registros rituais como as guardas do Shabat, do Yom Kipur e do Rosh Hashaná, além da Pessach e Chanuca. “Mas a purificação pela mikvé quase não foi mencionada nos documentos inquisitoriais até então pesquisados”, explica.

Mikvé é o nome dado ao equipamento que serve à imersão ritual em água utilizada no judaísmo. Geralmente é usado na purificação da mulher após a menstruação e no nascimento de um filho, mas é também requerido aos que se convertem ao judaísmo. A imersão na mikvé é praticada ainda pelos homens antes do Yom Kippur e, em algumas comunidades, assume-se como um ritual semanal antes do Shabbat. A mikvé é usada também na casherização de utensílios, isto é, na purificação de utensílios que servirão no preparo dos alimentos.

A comprovação da sua existência no período colonial na Bahia suscitará perguntas do tipo: Quais os criptojudeus que nela se reuniam? Foram presos e torturados pela Inquisição e ainda assim guardaram segredo de uma sinagoga? Quais as estratégias que os cristãos novos faziam para não serem percebidos por seus vizinhos em seus movimentos heréticos? Como entravam e saiam sem serem notados? E as mulheres que, certamente, lá iam se banhar, que infraestrutura dispunham para dissimular sua prática religiosa mensal? Estas e outras perguntas deverão ser respondidas no decorrer da pesquisa, que necessita neste momento de parceiros dispostos a investir na descoberta de um novo – e até então desconhecido – capítulo da história brasileira.

Fonte: Pletz

 
2 Comentários

Publicado por em maio 28, 2012 em Judeus

 

2 Respostas para “Judeus na Bahia?

  1. George

    maio 20, 2013 at 2:20 pm

    Evidências muito frágeis.

     
    • tonihuff

      maio 20, 2013 at 10:08 pm

      Mais ou menos 70% dos primeiros brasileiros eram judeus, convertidos ou não. O primeiro homem que desceu no Brasil era judeu, Luiz Pires, comandante de uma nave de Pedro Alvares Cabral, que também era judeu assim como Cristovão Colombo

       

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