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Terra de leite, mel, sol e chuva

15 set

O Estado de Israel localiza-se no continente asiático, em uma região conhecida desde o princípio do século XX como Oriente Médio 1. Localizada a não muitos quilômetros da Europa e da África, o pequeno país de 22.072 km² 2 acaba por ser influenciado climaticamente por três continentes e possui uma variedade de vegetação e clima desproporcionalmente abrangente para seu tamanho. Podemos chegar a ver neve em Jerusalém, que se localiza a pouquíssimos quilômetros do Deserto de Judá, onde a temperatura chega a 45º no verão. Pouco mais de 200 km separam o Lago Kineret (ou Mar da Galileia), onde chega a chover 28 dias por mês durante o inverno, do seco Deserto do Neguev. Por falar em Neguev, o que dizer de Mitzpe Ramon, localizado no coração do deserto onde esporadicamente neva no inverno? A geografia de Israel é complexa como o mosaico cultural do país: há de tudo, e tudo está misturado. Falaremos um pouco sobre isso, então.

 

Vista do Golfo de Eilat. No fundo as montanhas do Sinai, no Egito.

Vista do Golfo de Eilat. No fundo as montanhas do Sinai, no Egito.

Não sou geógrafo, mas me recordo um pouco das minhas aulas de geografia dos ensinos fundamental e médio. O clima em Israel é temperado mediterrânico. O clima temperado se caracteriza por ter as quatro estações do ano bem definidas. O clima mediterrânico tem como marca os verões extremamente secos e os invernos chuvosos, ao contrário do que acontece na maior parte do mundo. Isto se dá porque os ventos quentes do Saara empurram as nuvens do Mediterrâneo para longe da costa, impossibilitando as chuvas de verão. Ou seja: além de não chover durante todo o verão, os ventos (sobretudo no deserto e na orla) são quentes. E durante o inverno, que raramente chega a ter temperaturas negativas, a sensação térmica diminui em dias chuvosos e ventosos. Primavera e outono são os meses mais agradáveis, com temperaturas amenas, chuvas esporádicas e dias ensolarados. Evidentemente que quanto mais se aproxima do verão, mais quente é o primavera, assim como seu princípio é mais frio e chuvoso por começar logo que termina o inverno. O mesmo acontece com a outono nos períodos próximos às estações mais extremas.

 

Nada do que foi escrito até agora é estranho para alguém que já foi a Península Ibérica, sul de Itália ou França, litoral norte da África, Bálcãs, Turquia ou outros países litorâneos situados após o Estreito de Gibraltar. O que há de especial em Israel são as grandes diferenças climáticas existentes dentro de um país tão pequeno. Darei aqui, então, minha narrativa pessoal sobre as condições climáticas do país onde vivo.

 

Nascido e criado no Rio de Janeiro, a umidade e o calor não são novidade na minha vida. Como boa parte dos cariocas presunçosos, eu nunca imaginei que seria difícil para alguém como eu acostumar-me com o calor em nenhuma parte do mundo. Ledo engano. O calor do verão israelense beira o insuportável! A temperatura máxima na maior parte habitada do país raramente ultrapassa os 33º, mas a violência com a qual o sol toca a superfície, aliada aos ventos quentes, comuns em quase todo o território, faz com que a sensação térmica chegue aos 40º facilmente. A diferença em relação ao Brasil é o que eu chamo ironicamente de falta de esperança: não há a mais remota chance de que chova após o dia 15 de junho. Não há frente fria. Não há queda brusca de temperatura. São pelo menos 90 dias de calor insuportável. E pode piorar: há algo em Israel chamado sharav: ondas de calor vindas do deserto do Saara, que elevam de 2 a 5º a temperatura, fazendo qualquer carioca malandro pedir arrego. Voltaremos a ele mais tarde.

Dia de sol em Tel-Aviv, vista de Yaffo. Foto de Henrique Jablonsky.

Dia de sol em Tel-Aviv, vista de Yaffo. Foto de Henrique Jablonsky.

 

Evidentemente o calor não é igual em todas as regiões. Em cidades mais altas como Jerusalém, Safed ou no Golã, há ventos frescos durante o verão. O sol é acachapante como em qualquer lugar, mas as sombras e as noites são bem mais agradáveis. A região chamada de “Centro” (litoral oeste e sua periferia), que envolve Tel-Aviv, é caracterizada pela umidade. Durante os três meses do verão não há vento fresco. As noites são quentes e o suor é inevitável. A maioria dos israelenses detesta a umidade. Eu hoje também a detesto: clima úmido e calor atuando juntos são agradáveis somente quando há chuvas torrenciais equilibrando a temperatura. O Neguev, por incrível que pareça, pode ser menos radical: o clima é seco, a umidade do ar pode chegar aos 5% durante o verão. A temperatura tem máximas de mais de 40º, e o sol junto ao vento quente tornam o clima pesado para respirar. No entanto, as sombras e a noite são muito mais amenas que o litoral. Fugir do sol é uma boa dica. O Deserto do Neguev, no entanto, não é a região mais quente do país. Há outros dois desertos em Israel: o Deserto de Judá (que abarca também parte da Cisjordânia), onde se localizam o Mar Morto e a antiga fortaleza de Massada e o deserto de Arava, no extremo sul do país, chegando até o Mar Vermelho (onde se localiza o balneário de Eilat). Por lá o clima seco não ajuda a amenizar o clima nem à noite, e a temperatura pode chegar aos 46º. E a região do Mar da Galileia, segundo a Wikipedia, registrou a maior temperatura da história do país 3: 53,9º em 1942. A região é úmida e quente. Em outras palavras: junta o que há de pior do verão em cada região do país.

 

Dia chuvoso em Tel-Aviv

Dia chuvoso em Tel-Aviv

Meu texto pode parecer um desabafo, mas, acredite, os israelenses em sua maioria adoram o verão. Pode ser que haja alguma influência da infância, já que é justamente no verão que ocorrem as “longas férias”. Mas boa parte dos israelenses lota as praias do país: de Ashkelon a Naharia, todas as praias estão abarrotadas de junho a setembro. Eilat, com seus 46º, é uma loucura! Famílias, soldados de férias, jovens, idosos e turistas estrangeiros de todas as idades entopem a cidade e divertem-se torrando suas peles. Explicável? Sim, para mim, sim.

 

Nunca vivi na região sul do Brasil, mas sei que o inverno por lá é bem mais rigoroso e longo comparado ao resto do país. Em Israel é assim, também. Eu, judeu ashkenazi, normalmente não sofro com o frio. Me agasalho bem e caminho pelas ruas de Tel-Aviv ou até mesmo de Jerusalém sem reclamar. Aos poucos o corpo se acostuma. Mas é de fato desagradável saber que a calça comprida me acompanhará invariavelmente todos os dias durante quatro ou cinco meses. Assim é o inverno aqui: longo, como é na Europa. Um pouco mais ameno do que na maioria dos países do velho mundo. Mas nem tanto.

 

Neve em Jerusalém. Foto de Claudio Daylac.

Neve em Jerusalém. Foto de Claudio Daylac.

A região do Centro é bem mais amena. No início do século XX ainda nevava em Tel-Aviv. Amigos meus juram ter presenciado neve na cidade de Kfar Saba (a 30 minutos de Tel-Aviv) nos anos 1990. Pode ser. Mas hoje, se a temperatura na região chega aos 5º, certamente será o dia mais frio do ano. O inverno no litoral israelense é um pouco mais frio e bem mais chuvoso do que o inverno paulistano.. A temperatura varia dos 6 aos 15º, em geral. Ninguém veste ciroulas, mas muitos telavivim 4 logo nos primeiros meses da estação, aproveitam a primeira brisa fresca e tiram dos seus armários seus sobretudos comprados em Paris para desfilar pelas ruas na moda do inverno. Dizem ser mais elegante, não sei. De moda eu não entendo muito.

 

Em Jerusalém isto é justificável. No fim de agosto as noites na cidade (e nos arredores, como na cidadezinha onde eu vivo) já são frias a ponto de exigir um suéter ou algo do gênero. No fim de setembro as noites já estarão frias. Outubro é como Tel-Aviv em janeiro. Novembro já não se vê mais ninguém com as pernas de fora. E de dezembro a março, o frio é intenso. A temperatura quase nunca chega aos negativos, mas a sensação térmica, sim. O vento é uma característica marcante da região, composta por montes e vales. Russos-israelenses já me disseram que não passavam tanto frio nos seus países de origem. Exageros à parte, o visitante ou o novato não podem deixar-se enganar pelos números: a temperatura não representa a sensação térmica nem no inverno, nem no verão. Esta é uma máxima sobre o clima israelense.

 

O país inteiro é frio. Haifa é fria. A Galileia é fria. O Neguev é frio. E o Golã é estupidamente frio. Em Jerusalém a neve pode aparecer de surpresa, mas igualmente pode não dar as caras. No Golã há neve em todos os anos. Às vezes mais, às vezes menos, mas há. E há muita chuva. Mais do que no Centro. O norte do país, em 2012, registrou um mês de janeiro com 28 dias de chuvas. A quantidade de água que caiu, no entanto, não foi suficiente para encher o Mar da Galileia, que, curiosamente, necessitou de pouco menos de 10 dias em janeiro de 2013 para, depois de 10 anos, finalmente ultrapassar a linha vermelha 5 que tristemente o caracterizava. Frio com chuvas é como se sente o inverno aqui. No deserto, obviamente, se chove pouco, mas pode haver até mesmo tempestades, que, mescladas com areia representam um perigo aos motoristas que encontram-se nas estradas sulistas. Com exceção de Eilat e do Mar Morto, durante o inverno, em nenhuma região do país se vê gente caminhando com braços ou pernas de fora, e isto não tem absolutamente nada a ver com a religiosidade do cidadão. Exceto, claro, quando chega um sharav. As mesmas ondas de calor que às vezes aparecem durante o verão, podem dar as caras no inverno e alegrar as pessoas. As temperaturas sobem, de repente, aos 20, 22, 27, até 30º, tornando o clima agradável e às vezes até enchendo as praias. O que é um pesadelo no verão, pode ser um sonho no inverno! Eu costumo dizer que o sharav durante o inverno nos leva à primavera. Se chega durante a primavera ou o outono, nos leva ao verão. E se chega durante o verão, nos leva ao inferno. É mais ou menos por aí…

Voluntários na plantação de jojoba do Kibutz Hatzerim, no Neguev. Foto de Bernardo Sosman.

Voluntários na plantação de jojoba do Kibutz Hatzerim, no Neguev. Foto de Bernardo Sosman.

Se você pensa em visitar Israel e não tolera o frio, pense bem antes de comprar a sua passagem. Se seu problema for com o calor ou com o sol forte, não venha durante o verão. A maior parte do ano, entretanto, registra temperaturas agradáveis: do fim de março ao início de junho, assim como do meio de setembro ao fim de novembro, na maior parte do país o clima estará ameno, possivelmente bom para ir à praia, para caminhas, fazer trilhas e etc. As chuvas são escassas e as roupas de frio podem ser leves. Isso, claro, se nenhum sharav chegar durante a sua estadia. Mas são só três ou quatro dias. E se você for aventureiro(a), e desejar conhecer um pouco dos extremos do país, desafie o verão e o inverno. Não deixa de ser uma experiência. Só venha preparado, com roupas de frio ou protetor solar. E beba água. Muita água.

Notes:

  1. Nome dado por Alfred Mahan por considerar esta região como a metade do caminho para a Índia
  2. Ou 20.770, caso sejam excluídos as Colinas do Golã e Jerusalém Oriental, dependendo da sua opinião política. Eu considerarei os dois territórios como parte do Estado de Israel pelo fato de o país ter declarado autonomia sobre os mesmos. Se algum dia forem devolvidos, não hesitarei em desconsiderá-los. Os territórios de Gaza e Cisjordânia (que somam 6.220 km²) não estão computados 
  3. Antes que fosse de fato um “país” 
  4. Habitantes de Tel-Aviv 
  5. A linha significa nível de emergência pela pouca quantidade de água 
 
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Publicado por em setembro 15, 2013 em Israel

 

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